7 de Setembro de 2007

Esdrúxulas Memórias do Fim do Mundo

Autor(a): Jayme (www)

O Redundante Ataque Dos Trôpegos Zumbis Assassinos

Quando o inferno veio à tona percebemos que todos os anos gastos desenvolvendo e aprimorando habilidades para matarmos uns aos outros foi tempo desperdiçado. Não se sabe como a epidemia começou, nem quando, nem onde. O que é de conhecimento geral é que matar um zumbi, mesmo sendo esta uma criatura cambaleante, lenta e desprovida de raciocínio lógico, requer muito mais esforço do que matar um cidadão iraquiano. Folhas e mais folhas de calendários eram viradas e a epidemia continuava a se propagar. Cidades foram tomadas, depois estados e, finalmente alguns países sucumbiram por inteiros aos mortos que andam.

Entretanto, mesmo nesses países afogados em tecido morto, sobreviventes batalhavam para reconstruir uma realidade há muito perdida. Homens esbravejavam contra humanos necrosados, mulheres ateavam fogo aos corpos de zumbis derrotados e crianças atiravam pedras em monstros pútridos. No entanto, esta não é uma dessas estórias. Não. Nossa história começa com apenas dois fugitivos (diferentes de “sobreviventes”) presos num guichê de metrô, enquanto um zumbi aguarda pacientemente do lado de fora, enquanto tenta engolir um pedaço de dedo, que insiste em pular para fora de seu estômago estourado.

- Puta merda, você viu aquilo? - disse Leandro tentando bloquear a porta com rifle de caça que segura em suas mãos - Eu estourei a barriga do bicho!

- É, e desperdiçou nossa última bala, sua mula! - respondeu aos berros Augusto - Se eu não tivesse jogado aquele dedão para ele, nós é que seríamos os zumbis!

- Tá, você sempre tem de ver o lado ruim… - Leandro disse enquanto puxa uma cadeira para sentar - Tente ser mais otimista, pelo menos ele não vai conseguir engolir mais ninguém depois disso.

Augusto lutou para se conformar. Quando finalmente conseguiu, percebeu inevitabilidade de suas mortes estampada em sua situação atual. Estavam ambos presos numa pequena cabine situada numa estação de metrô. A única saída era bloqueada por um zumbi sem estômago e com 5 dedões. Não havia para onde correr, não havia armas com que lutar e, se decidissem brincar de “briga de dedão”, certamente perderiam.

Horas se passaram até que Augusto perguntasse:

- E agora? - uma pergunta retórica, mas isso não impediu Leandro de responder.

- Bem, talvez eu deva dar uma olhada lá fora… - respondeu Leandro (e eu avisei que ele responderia) - Eu já volto…

- NÃO! - berrou Augusto - Você está louco? NUNCA, NUNCA, diga “Eu já volto” quando existirem zumbis por perto!

- Quê? - indagou Leandro, embasbacado.

- Nunca assistiu a um filme de terror? “Eu já volto” é o sinônimo cinematográfico a “Vamos nos esconder no celeiro”. É uma deixa para a morte certa… A criatura estará no celeiro! Entende?

- Quem falou em celeiro? Eu só vou ver se o carinha cinza sem barriga ainda está lá fora… Não vou ao celeiro. E nem me importo se há alguém, ou não, nesse maldito celeiro…

- Ai, sua mula - Augusto bateu na testa com tamanha força que quase caiu de costas - Estou dizendo que dizer “Eu já volto” caracteriza sua morte certa. Se você diz que já volta, é óbvio que nunca voltará… Acabará pulando para fora do estômago daquele zumbi parte por parte.

- Hmmm… Então ok - argumentou Leandro (e no caso de Leandro “Então ok” tratava-se realmente de um argumento) - Não demoro…

- Peraí!!! Dizer “não demoro” é a mesma co… - antes que Augusto pudesse terminar sua frase, algo terrível aconteceu.

- Ai, merda… - resmungou Leandro, interrompendo.

- “Ai, merda”? Era essa a coisa terrível a que o narrador se referia? Não vi nada demais… - disse Augusto me desafiando.

- Um mosquito me picou… - respondeu Leandro.

- Um mo-mosquito? - perguntou Augusto.

- É, um mosquito… Por quê? Vai dizer que vou parar no celeiro por causa disso?

- Sai de perto de mim! Não se aproxime! - Augusto começou a gritar, subitamente.

- O quê? Que foi??

- Essa doença… Os zumbis… Eles se transformam depois que o sangue infectado entra em contato com um corpo são!

- E daí?

- E daí? E se o mosquito que te picou estivesse doente?

- Um mosquito zumbi?

- É, ou coisa do tipo… E se você se transformar?

- Porra, estamos falando de zumbis, não de dengue! - disse Leandro tentando se aproximar de Augusto.

- Sai, zumbi dos infernos! - afastou-se Augusto. - Vou te dar um peteleco!

- Vá se catar! - respondeu Leandro - Até parece que um peteleco iria afastar um zumbi…

- Aaah, e como é que você sabe? Só se for um zumbi!!!

- Eu não sou um zumbi! - explicou Leandro.

- Então vou te dar um peteleco!! - ameaçou Augusto.

- Ah, quer saber? Eu já volto!!!

Leandro girou sobre os calcanhares, abriu a porta e saiu em disparada. Seu corpo sem vida foi encontrado em um celeiro abandonado, meses depois.

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