17 de Abril de 2007

Aos primeiros raios de sol…

Autor(a): CoN

Eram 4h35 da manhã quando acordou. O sofá sob seu corpo fazia doer suas costas, e o uísque barato, que antes enchia as garrafas agora espalhadas pelo chão, fazia doer sua cabeça. O abajur estava também no chão, e iluminava o caos que se instalara no apartamento cerca de 9 horas atrás: as garrafas, cinzas de cigarros, uma camisinha e um revolver jaziam por perto. O revolver! Que risco deixá-lo ali, assim!

Levantou-se do sofá duro para desligar o despertador que o acordara. Recolheu o revolver, guardando-o no bolso da jaqueta. A lua brilhava lá fora, em meio à fumaça sempre presente ali no subúrbio. Vida dura, a daqueles que moravam ali. Mas agora ele não podia pensar nisso. Sua cabeça doía, mas ele a mantinha focada no motivo por que acordou àquela hora.

Seu celular vegetava sobre a mesa. Embolsou-o junto com a chave da moto, e saiu para a noite gélida. Deu partida e, enquanto percorria ruas e ruelas em direção ao seu destino, relembrava o plano.

Era simples. Chegar, matar, dar o sinal. O incêndio ficaria por conta dos outros, seus fiéis parceiros. E aquele desgraçado teria o que merece. Ah, só de lembrar, tinha espasmos de fúria! O bandido, traidor, que mudou de lado na última hora e lhe ameaçou tirar suas maiores preciosidades. Seu irmão, infelizmente, ele não pôde salvar. Mas, de forma alguma deixaria que lhe tomassem ela.

O destino se aproximava e ele já sentia a satisfação de fazer justiça com as próprias mãos. O vento na cara era excelente para curar-lhe a dor de cabeça e tirar os últimos resquícios de uma ressaca inexistente, nunca fora homem de ter ressaca. Seu celular vibrou. Ela!

- Falei para você não ligar, Janaína, só se mantenha escondida!

- Foge daí, por favor - a voz da moça transparecia aflição, quase desespero - vai dar polícia lá, eles tão sabendo, alguém te entregou!

O aviso foi um balde de água fria pra ele. Prometera, por inúmeros motivos que iam desde orgulho próprio à memória de seu falecido pai, que nunca se deixaria ser preso - e aquele plano acabara de se tornar um pedido ao xadres. Por outro lado, jamais deixaria escapar uma chances dessas, de vingar seu irmão e proteger sua garota. Rapidamente, como sempre fazia, chegou à uma solução.

- Lembre-se que você é a coisa mais importante para mim - foi tudo que disse pelo celular, antes de arremessá-lo num bueiro próximo.

Meia hora mais tarde, a polícia invadia o casebre onde uma denúncia, feita por uma jovem moça, dizia que ali ocorreria um assassinato. Era tarde. Dois corpos jaziam no chão, um com uma aparência assustada e um furo no peito; o outro, com um sorriso no rosto e um tiro na lateral da cabeça. Enquanto isso, a tortura do remorso fazia Janaína chorar copiosamente sobre a foto do único homem que a amou na vida, enquanto os primeiros raios de sol invadiam sua janela.

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