Máculas
Autor(a): paulo (www)
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Era um homem a sós com sua consciência. Seu nome não importa. Nomes são detalhes ínfimos que só fazem com que o andamento da história se atrapalhe. O que importa é que se encontrava sozinho como nunca estivera. Não que a solidão o incomodasse, mas a companhia de alguém afugentaria os pensamentos que lhe tiravam a concentração.
Solidão é momento de reunião consigo mesmo. Solidão é insônia.
As festas de fim de ano. Ah, as festas. Clichê falar sobre a solidão neste período do ano, mas a um escritor medíocre com pouco o que dizer, o que resta? Resta dizer que apesar de estar em família, o homem estava sozinho.
Nada de questionamentos existenciais sobre a solidão dos tempos modernos, nem de discursos inflamados sobre uma solidão inconsolável feitos por bandas adolescentes. A solidão do homem era genuína, pura. Retifico. Não há nada que seja imaculado, mas o vazio que sentia era intenso e monotônico, de volume capaz de sobrepujar qualquer ruído externo.
A causa de sua solidão era um dilema moral corriqueiro, embora não sem importância. Sua namorada viajara e o deixara com o fim do ano nas mãos. Namoro antigo, daqueles em que já se conhece mais do parceiro do que se desejaria. Daqueles que já ultrapassaram ‘the point of no return’ e estão em inércia, esperando o final iminente. Pelo menos era assim que o homem pensava. Pois bem, estando a namorada em viagem, o homem reencontrou uma paixão de infância. O modo como isso se deu é igualmente irrelevante, importa o fato de que o homem nunca chegara a ter de fato contato carnal com a paixão de infância; e também o fato de que seu relacionamento com a namorada fosse até aquele momento o mais sincero possível (lembrem-se, nada é imaculado).
Marcara um encontro com a garota de sua infância, que por sua vez mostrou uma receptividade um pouco maior do que a considerada respeitosa pelo homem. Ela deixou claro que conseguiria transpor o hiato temporal entre a paixão infantil e a infidelidade despretensiosa. Conseguiria ele?
Cometer adultério não estivera tão fora de seus planos nos últimos tempos como gostaria que estivesse. Hipótese longamente ruminada em noites solitárias. Tomar os passos que levariam ao adultério dependeria da decisão inicial de cometê-lo. E essa decisão sempre fora barrada. Agora, aquela garota dos sonhos de pré-adolescência ter surgido, disposta a fazer mais do que fazem bons amigos, derrubara suas defesas.
Com um encontro marcado…o primeiro passo fora dado. Mesmo que não comparecesse ao encontro, mesmo que fosse ao encontro e se recusasse a oferecer à sua antiga paixão mais do que um bate-papo, tudo seria diferente. Violara o código de ética do namoro, o que equivalia à traição mesmo que o encontro previamente combinado não se realizasse.
Sentimento de culpa. Culpa por atos ainda não cometidos, mas premeditados. Alguém não pode ser condenado por premeditar um crime sem que o tenha executado, mas os assuntos do coração têm juízes impiedosos e oniscientes… nada tirava do homem a impressão de que sua traição viria à tona. E aí a solidão. A solidão de perder a namorada que não queria, por ter convidado outra pra sair. E nem sabia ainda se veria a outra.
Que importava? A situação fugira de seu controle no momento em que marcara o encontro. E o desencadear de eventos levaria ao término do namoro, que fora escrito, ensaiado, reescrito e engavetado tantas vezes. Se sua decisão antecipava o fim iminente, porque solidão? Aquela solidão tão diferente das outras, tão indefinível e tão forte, solidão tão saudade. Isolado entre os extremos da proximidade com o amor de outrora e a distância do amor atual. O novo, perigoso desconhecido em oposição ao velho, confortável familiar. E a solidão.
Conforme se aproximava a hora do encontro, a sensação que começou quase imperceptível agora lhe tornava Prometeu. Reciclando idéias dolorosas, que após derrotadas, ressurgiam para novo embate. E a dor/solidão era agora quase toda remorso e saudade. Era derrota. Solidão é insônia, é a prisão da consciência culpada. E toda a conversa sobre a relatividade do dever ser e do dever fazer não valem nada; explicações antropológicas/filosóficas sobre a moralidade cristã tampouco. Vale a dor do homem. Vale sua solidão.
Não foi ao encontro. E isso amenizou sua solidão, mas não expiou seu crime. Infração boba, corriqueira, mas tão pesada nos ombros do homem. Quando sua namorada voltou, seu sentimento de isolamento novamente diminuiu, mas a marca da infidelidade impedia que tudo voltasse imediatamente a ser como era antes. Perdera para sempre o seu quinhão de namoro intocado. O homem não contou à namorada o que ocorrera. A ignorância é uma dádiva. Talvez ela já tivesse passado por situação semelhante…quem sabe?
Seguiu então o homem com seu amor imperfeito, com retalhos, cicatrizes. Mas definitivamente, não se sentia tão solitário. Nada é imaculado.
