10 de Fevereiro de 2007

É tempo de mudanças…

Autor(a): CoN

É incrível como um simples comentário pode nos fazer mergulhar em pensamentos confusos e sentimentos nostálgicos, fazer parecer que o motivo de felicidade na verdade é motivo para tristeza, e fazer-nos pensar que nada é como devia ser.

Otávio estava arrumando suas coisas para a mudança. Esperou muito por aqueles dias, os dias da mudança, os dias de arrumar tudo, festejar com a família, escolher onde morar, conhecer pessoas novas, lugares novos.

A mudança estava prevista à três anos, desde quando seu pai arrumara aquele emprego misterioso e disse que em três anos seria promovido e teriam que se mudar. A promoção, e conseqüente mudança, trariam benefícios para toda a família: mais dinheiro para casa, melhores condições de moradia, uma escola melhor, mais opções de lazer.

O garoto tinha apenas 11 anos quando chegou o tempo de mudar, mas se sentia muito feliz. Naquele momento, andava pela rua, em direção à padaria, absorto mais uma vez em pensamentos sobre como seria sua nova vida, quando um de seus amigos da vizinhança lhe parou e começou a conversar. Papo vai, papo vem, chegaram ao assunto da mudança.

O amigo, quase que um irmão pra Otávio, se sentia feliz pelo amigo ter uma chance de melhorar de vida, mas não deixava transparecer a tristeza que sentia ao saber que se separariam. Ao fim, quase terminando o papo, já que Otávio ainda tinha 10 pãezinhos pra comprar, o amigo deixa escapar “O que foram três anos hein? Pois é, o tempo passa…”.

Embora simples, o comentário fez Otávio refletir. Começou a se lembrar, meio sem prestar atenção à rua que atravessava, quanto se divertira com o pessoal da vizinhança; lembrou-se, sem perceber que o padeiro lhe servia os pães, das vezes que eles tinham tocado a campainha dos vizinhos e saído correndo; recordou-se, desatento ao fato de ter voltado pra casa e estar subindo as escadas, das risadas, das brigas, das conversas bizarras e de todas as coisas que havia feito com esses amigos tão queridos.

E deitado em sua cama, mesmo sabendo que a mudança era inevitável, e mesmo sabendo que ela vinha pro seu bem, e mesmo sabendo que teve tempo para se preparar pra ela, e mesmo sabendo que tudo isso fazia parte da vida, mesmo assim, Otávio fechou os olhos e chorou, desejando do fundo do coração poder não se mudar, pra ficar, mais um dia que fosse, com seus amigos.

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