27 de Junho de 2007

Ressaca

Autor(a): CoN

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João acordou com um mau-humor maior do que já era esperado, já que ele sempre acordava de mau-humor. Dessa vez, ele acordou de ressaca. Além do mal-estar geral, sua cabeça explodia de dor. Levantou-se, foi até o banheiro. Vomitou.

Lembrou-se que ainda tinha que concertar seu computador, que, pra variar, tinha dado problema sem nenhum motivo aparente. Mas decidiu que não estava em condições e, em vez disso, sentou-se na sala com seus companheiros de república.

Conversavam sobre algo que passava na tv, que João não fazia sequer a menor questão de descobrir o que era. Sua cabeça girava de um jeito estranho, e sentiu que passava mal. Correu para o banheiro de novo.

Refeito, temporariamente, resolveu que era melhor se deitar em sua cama. Tinha muita coisa pra pensar, e sempre que estava nessa situação, a cama era o melhor lugar. Lá, devaneava sobre sua vida, seus problemas (que, por mais que os outros insistissem em dizer que não, eram muitos) e sobre o que mais quisesse.

Obviamente, o pensamento voôu direto para Luara, antiga amiga sua por quem tinha um carinho especial, e sua conversa com ela na noite anterior. Ele havia saído para buscar comida em um barzinho próximo quando a viu, no mesmo bar, com um conhecido de ambos. Cumprimentou-os e, conversando, descobriu que estavam namorando. Após isso, ele não sabia sobre o que mais conversaram, pois ele não havia prestado atenção.

O fato é que ele se sentiu furioso. Não que isso fosse estranho, muitas coisas deixavam-no furioso, bravo, estressado ou qualquer coisa parecida, e nesse caso não foi diferente. O fato é que a furia se misturava com um sentimento de angústia, angústia por saber que ela estava namorando um cara que não era ele. Não que algum dia eles tivessem namorado, ou sequer tivessem tido qualquer princípio de relacionamento. Ele nunca teve coragem de dizer nada a ela sobre o que sentia, e agora não seria diferente. Mas, que isso foi fato crucial pra ele resolver se embebedar, isso foi.

Enquanto viajava por pensamentos de raiva, angústia, tristeza e outras coisas que, se algum de seus amigos soubesse que passavam por sua cabeça, o enxeria muito o saco, ouviu alguém lá da cozinha gritar “Jão, acabei de comprar sorvete de flocos, chega aí”. Coincidência ou não, João tinha frequentemente uma estranha vontade de que o mundo se tornasse uma enorme bola de sorvete de flocos. Não é que ele realmente gostasse de sorvete de flocos; mas a idéia do planeta inteiro ser branco, gelado, escorregadio e cheio de pequenas “impurezas” pretinhas era fascinante. E, geralmente, seria também uma forma dele fugir desse mesmo mundo.

Foi tomar o sorvete.

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