15 de Janeiro de 2007

Quando a casca se quebra

Autor(a): Bam

Quando crianças somos ingênuos, nos magoamos por gestos, palavras e ações pequenos. Tudo é muito difícil de se superar. Somos insetos sem seus exoesqueletos, sujeitos a qualquer mau humor do meio.

É como naquele dia em que você resolveu ir para a escola com a sua nova lancheira da barbie em forma de coração. Para você aquele bem material era a coisa mais linda que existia na face da terra. Claro, depois dos milhões de comerciais assistidos, nada poderia ser mais bonito.

Enfim, você vai para a escola exibir sua nova lancheira. No intervalo está se divertindo com seus amigos e, de repente, chega aquela menina… isso mesmo, aquela que você não sabe por que tenta tornar sua vida um inferno.

Ela simplesmente começa a chamar você de monga, de menina da barbie, de garota da lancheira ou qualquer coisa do gênero. E você ainda é uma criança, não sabe lidar com as palavras dos outros, não sabe que nem todo mundo vai gostar de suas coisas. E é nessa hora que você chora, grita, esperneia e soluça tanto que nem consegue conversar. Parece que nunca mais vai sofrer dessa forma na sua vida.

E são com essas pequenas mágoas que você começa a criar ao redor de si aquela casca. Aquela proteção para sobreviver na vida de adulto.

Com todas as decepções a sua casca fica cada vez mais espessa. Você chora menos, esperneia menos, imagina sofrer menos. Todo mundo diz que você está crescendo, que está virando uma mulherzinha, que é uma pessoa forte e que será uma bela adulta.

Mas você sabia que aquela criança ainda estava dentro de todo aquele armamento criado para suportar a vida, para ser uma adulta. Você temia o dia em que iria encontrar seu cego a mascar chicletes, que sua casca não seria tão espessa e o ovo iria se quebrar.

E foi naquele dia…um dia que parecia comum, como qualquer outro do ano… O sol não aparecia, no entanto as nuvens não o cobriam por inteiro. Não chovia, gotejava. O arco-íris se mostrava ainda incerto, como se não soubesse se era o momento certo para colorir o céu.

Saiu do trabalho, cansada de agüentar seu chefe tagarelando e reclamando de tudo que fazia. Ele era esse tipo de pessoa… nada nunca estava bom, ainda era obrigada a ouvir ele dizer a mesma coisa umas cinco vezes.

Quando chega em casa ainda precisa arranjar uma maneira de consolar sua companheira de apartamento, pois seu pai acabara de morrer. A televisão apenas mostrava as tragédias do mundo e sentia-se uma fracassada por não ter ido atrás de todos seus ideais adolescentes.

Não que estivesse em seus 45 anos e tivesse descoberto toda a fragilidade e superficialidade de sua vida. Mas, aqueles fatos foram necessários para lhe causar arrepios e fazer sua casca se quebrar.

Então chorou, esperneou e soluçou como quando era frágil…sentiu toda a ingenuidade dominar seu corpo. Era aquela criança de 15 anos atrás que tomara seu corpo. Era toda aquela impotência diante do que faria de sua vida.

Por um momento também não pensou em nada, apenas sentiu aquela dor inocente. E dormiu como nos velhor tempos, com o rosto enfiado no travesseiro e a vida passando ao redor de si.

No dia seguinte a casca voltou, de maneira inexplicável. E apesar da frivolidade do exoesqueleto, ainda era algo útil para continuar a caminhar. Se quisesse, de alguma forma, mudar a travessia para algo mais parecido com suas idéias de criança, com a proteção conseguiria mais facilmente.

E é assim, com quebradas da casca, voltas ao passado, problemas e soluções que crescemos, que aprendemos para tentar mudar nosso rumo, para voltar aos ideais que foram deixados nas cinzas. Ou então para continuarmos na pacata viela, como o simples caracol de Lorca, ao invés de irmos atrás das estrelas.

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