19 de Setembro de 2008

Auto-conhecimento

Autor(a): CoN


Se você precisasse descrever com palavras exatamente quem é você, seria possível? Se lhe fosse colocada uma arma apontada para a cabeça, e lhe dissessem “escreva nessa folha de papel exatamente quem você é, o que você pensa, quais são seus anseios e seus medos, sem esconder absolutamente nada”, você conseguiria ou morreria?

Se morreria, bem vindo ao time. Mas, se conseguiria, bem, então aí vai outra pergunta: você acha que o que você disse de você mesmo representaria a verdade? Claro que sim, se você mesmo escreveu, mas você acha que uma pessoa qualquer, sua mãe, um amigo ou sua namorada, por exemplo, lendo esse texto sem seu nome como título saberia que se tratava de você? (faça a experiência, qualquer dia).

Eu apostaria que não. Não apostaria alto, já que não te conheço, mas correria um pequeno risco. Seja você homem ou mulher. Afinal, se você leu ali em cima, percebeu que seu texto deverá conter cada pequeno distúrbio de sua personalidade, cada trauma, cada medo estúpido que você nunca compartilhou com ninguém, cada besteirinha que já fez na vida. Se você foi mordido pelo Pincher da sua tia quando pequeno e desde então morre de medo desses grandões, isso vai estar lá. Se você um dia, mesmo que sem querer, se pegou olhando perdidamente apaixonada pro namorado da sua melhor amiga, isso também vai estar lá. Se você sempre disse que adorava ter pais separados porque ganhava duas festas de aniversário, mas no fundo sempre quis vê-los juntos de novo, é, também vai estar lá.

Esses pequenos detalhes separam você da imagem que fazem de você. E, embora eles sejam importantes, não podemos deixar que a imagem fique muito distante do real. Senão, nós mesmos passaremos a acreditar na imagem, e isso pode trazer problemas sérios. Como com Frank, que todos no serviço chamavam de O esquisito. O cara trabalhava numa puta indústria, coisa chique. E não importava o que acontecesse, ele tava sempre lá pra ajudar. Prestativo pra caramba. Tava lá fazia uns 2 anos, e chegou lá vindo de uma faculdade invejada.

Mas ninguém nunca perguntou pro Frank o que ele queria da vida. Digo, o que ele queria de verdade. Ele cresceu naquele meio de gente rica e sem graça que passa o dia tentando ficar mais rico e mais sem graça, e assim ele aprendeu a viver. O empregão invejado, a faculdade boa, o carro, a casa, a boa vida, tudo isso era bom. Ou ele achava que sim. Mas, por algum motivo, o cara tava sempre deprimido.

Quando pequeno, Frank conversava com os amigos sobre o que seriam quando crescessem.

– Eu quero ser ator!

– Fala sério Frank, isso não leva a nada. Eu quero ser engenheiro que nem meu pai, ou médico que nem minha mãe.

Ele até que freqüentou aulas de teatro, a arte estava dentro dele. Mas ele cresceu, e os estudos passaram a ser mais importante. A faculdade passou a ser mais importante, ter um diploma passou a ser mais importante. O que estava em jogo, aparentemente, era sua vida, seu futuro. Ele foi estudar.

Quando o encontraram pendurado numa gravata de seda muito cara, alguns pensaram que era um desperdício. Outros tiveram sensibilidade o suficiente pra ler suas últimas palavras, deixadas em uma pequena carta em cima da mesa:

Este é Frank:

Um sonhador. Nasceu em berço de ouro. Teve excelentes pais, muito atenciosos e cuidadosos. Freqüentou o jardim da infância e lá aprendeu o valor da expressão corporal e da arte na vida dos seres humanos apresentando pequenos teatrinhos no dia das mães e dos pais. Teve aulas de teatro. Deu seu primeiro beijo aos 13 anos, mas o primeiro que valeu foi aos 16. Teve medo, por toda a vida, de desapontar os pais e os amigos. Gostava de chocolate, mas detestava sorvete nesse sabor. Cresceu e se tornou um homem medíocre. Perdeu a sensibilidade e a capacidade de se expressar. Descobriu que, todo esse tempo, viveu uma imagem de sua vida que os outros criaram. Sua vida, a sua mesmo, esta lhe foi tirada cedo. Infelizmente, a descoberta veio tarde demais. Não agüentou viver a vida que queriam pra ele. Desistiu.

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