9 de Dezembro de 2006

João, o Revoltado

Autor(a): CoN

João acordou com aquele espírito “animado e feliz” com que acordava todas as manhãs, distribuindo olhares carrancudos para todos que lhe desejavam um bom dia, e se dando ao trabalho de resmungar algo que, se analisado friamente por alguém com muito bom humor e disposição, seria decifrado como uma resposta ao bom-dia que lhe foi desejado. Lavou o rosto na água fria da torneira, deu duas ou três agitadas em seus cabelos rebeldes antes de xingá-los por não se assentarem e saiu para a rua.

Seu automóvel, estacionado em frente sua casa, estava coberto por uma fina camada de poeira, que se acumulara durante a noite, vinda do terreno vizinho através do vento forte que soprou a noite. João sentiu espasmos de raiva ao lembrar do vento da noite, que chacoalhou tanto sua janela quanto um guepardo raivoso faria com um pequeno coelho que ousasse mordiscar suas patas. Obviamente, ele não se importava com o fato da janela quase torcer ao meio, e sim com o barulho que essa torção provocava, não o deixando dormir depois de ficar até as 2h45 da manhã tentando consertar seu computador – sem obter sucesso.

Saiu dirigindo pela rua pacata em que seu carro estava, bravo pela poeira que recobria o pára-brisa do carro. Contudo, só se deu conta da meleca que faria tentando esguichar água para limpar o vidro quando de fato esguichou água tentando limpar o vidro, melecando-o completamente. Já é reduntante dizer que isso o deixou mais irritado.

João guiava pelas ruas da cidade distraído, pensando, ao mesmo tempo, em quantas peças ele precisaria comprar para o serviço que realizaria nos computadores da empresa de seu tio, em quanto ele gastaria para terminar de consertar seu próprio computador – ele já havia gasto um bocado, e estava no vermelho esse mês - e em quão bizarro era o movimento de cabeça que a pessoa do carro da frente fazia, obviamente, dançando ao som de alguma música que tocava em seu rádio. Em alguns momentos do trajeto, João também desejava que o mundo se tornasse uma enorme bola de sorvete de flocos. Não é que ele realmente gostasse de sorvete de flocos; mas a idéia do planeta inteiro ser branco, gelado, escorregadio e cheio de pequenas “impurezas” pretinhas era fascinante.

Quando João atravessava o cruzamento de duas avenidas movimentadas, atento ao tráfego de carros que vinham pela avenida, uma voz conhecida lhe chamou a atenção.

- João!!

Olhou em volta, momentaneamente distraído, procurando a fonte do chamado.

CATAPLOF!!!!!!

-Bom, senhor, mais uma vez eu peço desculpas. O senhor pode ficar com meu número de celular, e eu ligo pro senhor amanhã mesmo, pois meu seguro vai cobrir tudo, pode ter certeza

- É, é bom mesmo… E mais atenção no trânsito por aí hein garoto. Humpf.

João ouviu engoliu seco este último comentário, e virou-se, para falar com Luara, a amiga que havia lhe gritado, e que esperava pra falar com ele.

- Hei João, sempre distraído hein! – João teve ganas de voar em seu pescoço e lhe dizer que só havia batido o carro porque ela havia gritado e tirado sua atenção. Mas, era ela. Justo ela. Só respondeu:

- É… Pois é… – permaneceu em silêncio, e depois - Bom, tenho que ir, preciso avaliar quanto vai custar consertar isso. A gente se fala. Tchau.

Não deu muito tempo pra que ela respondesse, virou as costas e saiu pensando no dinheiro que teria que emprestar de seus amigos pra poder fechar o mês. Mais que nunca, desejava do fundo de sua alma que a Terra se tornasse uma enorme bola de sorvete de flocos.

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