Santa Paciência
Autor(a): CoN
João era um rapaz jovem, que sempre teve problemas com os outros por chamarem-no de estressado, reclamão e outras coisas do gênero. Não que ele não fosse tudo isso. Ele era. E tinha plena consciência do fato. Mas, orgulhoso que só vendo, não admitia isso de forma alguma.
O rapaz estava tendo uma semana realmente ruim. Recebeu seu salário com 5 dias de atraso, atrasou na entrega de seu trabalho de faculdade recebendo uma nota ruim e um de seus amigos de república havia brigado com ele por causa de uma torrada e três bolachas salgadas.
Contudo, não reclamara de nada! Nada! Não brigou com ninguém (exceto aquele boca grande do Pipoca, o amigo da república, e mesmo assim, foi o outro que havia brigado com ele), não teve crises nervosas, foi simpático com tudo e todos, enfim, fez tudo aquilo que todos esperam que as outras pessoas façam, mas nunca as fazem por si só. João fazia de tudo para que as pessoas deixassem de ter aquela impressão ruim sobre ele.
Desceu do ônibus que tinha pego naquela sexta-feira calorenta, caminhou um quarteirão, e chegou à oficina mecânica. Seu carro estava lá havia duas semanas, desde quando ele o bateu com tudo num cruzamento, acidente fruto de uma distração momentânea provocada por uma amiga. Embora o mecânico tivesse dito que o carro estaria pronto em 3 dias, João não havia tido coragem de ir busca-lo até aquele momento pelo simples, mas constrangedor, fato de que ele não tinha dinheiro para pagar o conserto.
Bom, agora ele tinha, e ali estava, para resgatar seu carro. Estranhava o fato do mecânico não ter ligado nessas duas semanas procurando por ele, mas achou que essa ausência súbita de interesse do homem veio bem a calhar nesse momento de aperto.
- OI! – disse, em alto e bom som, procurando alguém ali no pequeno barracão onde funcionava a oficina. Ao ouvi-lo, Zé, o mecânico, saiu de baixo do carro em que trabalhava, para atendê-lo.
- Opa doutor, como vai?
- Tudo certo seu Zé. – disse em tom descontraído - Escuta, vim buscar meu calhambeque. O coitado já está arrumado da cacetada que deram nele?
- Putz doutor – disse o mecânico lentamente, dando um tapa na testa - sabia que eu tava esquecendo de alguma coisa. Bem que eu pensei outro dia mesmo “tenho que ligar pro João”, mas aí, sabe como é né, um serviço, outro, outro, e a gente esquece… Tem aparecido muita gente aqui pra… – João lhe cortou:
- Seu Zé, fala então o que o senhor ia me falar no telefone… – sabia que a ausência de duas semanas do mecânico era estranha, e lhe teria um preço.
- Uia, olha que cabeça a minha, eu já estava esquecendo de novo de te dizer. Eu vivo dizendo, minha memória a cada dia que passa está pior. Deve ser a idade. Vi outro dia na televisão que…
- Seu Zé, meu carro, seu Zé – a abençoada paciência de João, aquela que durara milagrosamente durante a semana inteira, estava se esvaindo rapidamente.
- Pô, é mesmo, seu carro. Bem, ele tava amassado por fora e quando eu fui mexer nele, vi que o motor tava danificado também, por causa da pancada. Sabe, essas pancadas fazem um estrago, outro dia mesmo apareceu aqui um cara…
- Zé do céu, e aí, meu carro?
- Ah é. Bom, daí, eu ia tirar a peça danificada pra avaliar o estrago, quando ela escorregou da minha mão cheia de óleo e caiu no meio das engrenagens do motor. Eu ainda tentei tirar dali, mas foi pior. Acabei estourando algumas coisinhas do motor e precisei mandar o carro pra assistência oficial em São Paulo, mas não precisa fazer essa cara seu João que a gente cobre tudo e…
- VAI PRA $@!#&! PÔ, NÃO TÔ PREOCUPADO SE VOCÊS COBREM OU NÃO, VAI CUBRE A $#@#$! DA TUA MÃE CACETE, EU QUERO MEU CARRO PORQUE EU PRECISO DELE PRA TRBALHAR E UM MECÂNICO DE M$#@$ DETONA ELE E MANDA PRA SÃO PAULO!!!! VAI SE !#$%$@
Bufando, João virou as costas e saiu da oficina. Embora a raiva emanasse de seu corpo, ele sentia-se estranha e extremamente aliviado.
A Seu Zé, coube apenas dizer:
- Mas que sujeitinho estressado, sô!
