Perigo Noturno
Autor(a): CoN
Eram duas da madrugada e Aderbal acordou assustado, com a impressão de que alguém havia o cutucado. Abriu os olhos, virou-se de lado e viu que sua irmãzinha estava em pé ao lado da cama, o cutucando.
Resmungou perguntando o que ela queria, mas sem deixar claro que era isso o que ele estava perguntando, o que fez a garota achar que ele estava apenas bocejando. Ela olhou pra ele assim mesmo, e disse algo. Aderbal já estava adormecido de novo.
Ela o cutucou novamente, e ele acordou da mesma forma patética novamente, e novamente grunhiu algo incompreensível. Antes que ele dormisse de novo, ela disse de novo o que ela havia dito anteriormente, e dessa vez ele a ouviu.
Levantou-se da cama, mas não sem antes amaldiçoar a terra, o céu, as irmãzinhas pequenas e as lâmpadas que teimam em queimar nos momentos em que elas não deveriam queimar.
No quarto de sua irmã, o abajur azul exibia no globo de vidro branco, de forma patética, o rosto de um palhacinho sorridente. Aquele palhacinho havia sido seu um dia e por mais que as pessoas grandes achassem que aquele era o tipo de abajur que deveria decorar o quarto de uma criança, ele nunca lidou bem com o fato de haver um palhaço assistindo-lhe dormir por toda a noite. É claro que, agora crescido, devidamente amadurecido, sendo um rapaz esclarecido, aquele abajur não significava mais nada para ele.
Contudo, o abajur estava apagado, já que uma daquelas lâmpadas teimosas que insistem em queimar em momentos inoportunos havia queimado naquele momento, que era bem inoportuno; esse havia sido, inclusive, o motivo pelo qual sua irmãzinha acordara no meio da noite e havia ido cutucá-lo as duas da manhã.
Pacientemente, Aderbal removeu o globo de vidro com a cara patética do palhacinho, removeu a lâmpada queimada, colocou a lâmpada nova que havia ido buscar na garagem (“Malditas escadas! Malditas garagens distantes dos quartos! Malditas lâmpadas que se alojam nas garagens!”), recolocou o globo em seu devido lugar e acendeu o abajur.
Lá estava novamente o palhacinho, pateticamente sorrindo para ele, aquele sorriso bobo e feliz. Chegou a achar graça de, um dia, ter tido medo daquele simples abajur e só não começou a rir porque estava com muito sono pra isso. Cobriu sua irmãzinha e foi se deitar.
Deitou-se novamente em sua cama, pronto pra recuperar o sonho que estava tendo antes de ser acordado na primeira vez por sua irmãzinha (sonho que envolvia uma praia, uma famosa apresentadora de canais jovens e ele próprio, no papel de namorado da famosa apresentadora). Contudo, uma cabeça redonda branca de palhaço insistia em tomar de assalto todas as suas tentativas de relembrar seu sonho, contar carneirinhos ou simplesmente não pensar em nada.
Virou-se na cama, de um lado pro outro, como se não conseguisse dormir de forma nenhuma, que era exatamente o que estava acontecendo. A cada cochilada, uma trupe de palhaços de circo, todos com as cabeças brancas, o atacavam com chinelos de praia e sua namorada fugia desesperada em busca de um lugar menos circense para ficar mais a vontade, e ele acordava novamente.
Sua irmãzinha acordou (de forma muito menos patética, o que não era difícil) com Aderbal cutucando-a.
- Vim dormir aqui com você, porque eu sei que você deve estar assustada com a lâmpada que queimou.
Ela não estava assustada.
- Mas eu não tô assustada!
- Tá sim, não precisa fingir… Posso dormir com você ou não?
- Pode ué – fez uma pausa curta, suficiente pra perceber que o quarto estava escuro – Ei! Por que tem uma toalha em cima do meu abajur?!
