Infância
Autor(a): CoN
- Paiê, tá chegando?
- Ta Léo, falta só mais um pouquinho.
- Mas você já me falou isso várias vezes!
- Mas é que ta chegando mesmo, você que pergunta muitas vezes.
Léo se sentou de novo no fundo do banco. Seu leãozinho, Arnold, dormia em seu colo. Léo olhou pra ele, e cutucou seu nariz. O pequeno felino deu uma resmungada. Léo cutucou seu nariz de novo. O leãozinho espirrou e acordou. Olhou para seu dono, que ostentava aquela cara marota de “eu não fiz nada”, e voltou a dormir.
Léo viu que nem Arnold tava com vontade de brincar. Ele podia jogar gameboy agora, mas tinha esquecido as pilhas em cima da cama, antes de sair de casa. Já estava cheio de contar os carros que passavam na estrada, ou de fazer careta pros motoristas.
- Pai, a gente não vai chegar!?!
- Léo, eu já falei que estamos chegando! Olha bem ali, lá no fundo, ta vendo? Daqui eu to vendo a ponta do prédio da vovó, você não?! Acho que ela tá dando tchauzinho pra gente!
Léo olhou, apertando os olhos, mas não conseguiu ver o prédio. Aliás, nem cidade nenhuma ele via. No máximo, umas poucas casas espalhadas, avisando que o meio urbano se aproximava. Mas, se seu pai tava dizendo, então era verdade, estavam finalmente chegando.
O relógio do carro mostrava dois números, dois pontinhos e mais dois números. Os dois primeiros números, Léo conhecia, mas as aulas da escola tinham fugido de sua cabeça. O primeiro, um palitinho, era o primeiro da turma… Seu nome… Ah… Isso, era um! O segundo era apenas uma bola, chamava zero, mas Léo não entendia exatamente o que ele significava. Aliás, Léo também não entendia se o relógio marcava uma hora ou zero hora, já que os dois números estavam no mostrador! Ah, que cofusão!
- Pai, que horas são?
- São 10 e meia filho…
Ah! Então era isso! Dez e meia! Mas que diabos eram dez e meia?! Bom, isso já era muito complexo pra Léo, e resolveu parar de pensar nas horas.
- Ta chegando pai?
- Táá Léo… Escuta, pergunta pro Arnold se ele ta vendo a vovó lá longe! Acho que ela está esperando a gente com aquelas bolachinhas gostosas.
- Mas pai, o Arnold ta dormindo, e não quer acordar de jeito nenhum…
Léo não acordaria o Arnold pra perguntar qualquer coisa sobre a vovó. Sabia que o leãozinho não gostava da vovó, porque ela nunca lembrava o nome dele, e falava dele sempre como “o gatinho de pelúcia do Léozinho”. Léo já explicou pra sua vó muitas vezes que Arnold era um leão bravo e briguento, mas ela insistia em chamá-lo assim.
Léo olhou o relógio de novo. O último número do mostrador, que antes era um zero também, agora era aquele difícil de desenhar, com uma voltinha embaixo. Ah, o dois. Isso significava que passou dois… segundos ou minutos? Isso sempre confundia Léo, mas uma coisa era certa, não passou muito tempo. Que horas seriam agora? Dez e meia-dois?
- Pai, que horas são?
- Dez e meia filho!
- Mas era dez e meia na outra hora que você falou!
- Sim, agora são dez e trinta e dois, mas é que o papai arredondou.
Hum… É, o zero é mais redondo que o dois mesmo, mas o quê que isso tinha a ver?
Léo encostou a cabeça no banco, e começou a pensar nos números. Coisa de doido, não entendia porque ele tinha que aprender aquilo. Pior eram as letras, mas essas ele não sabia nem os nomes ainda… E aquela viagem então, tava dando um sono… As letras eram estranhas, algumas parecem números, que dançam… Não, as pessoas que dançam, e o carro balança… Aliás, é bom fechar o olho assim, com o balanço… Quantos números! Droga, as aulas acabaram e ele ficava pensando em números… Letras… Números… ZZzzzZzZzzz…
