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14 de Setembro de 2007

Como num passe de mágica…

Autor(a): CoN

Um telefone tocou. Um ato rotineiro na vida moderna. Mas não às 3h45 da manhã. E, no fuso horário onde João, seu quarto e o telefone do seu quarto (que, por acaso, era o telefone que estava tocando) estavam, eram 3h45 da manhã.

João, em alguns segundos de atordoamento por acordar, amaldiçoou Graham Bell por ter inventado o telefone, seus amigos por um dia terem tido a idéia de comprar uma linha telefônica pra cada quarto da república onde moravam, os funcionários da empresa telefônica por permitirem que o sistema de telefonia esteja ligado e funcionando a essa hora da madrugada e, principalmente, a pessoa sem-noção que estava ligando àquela hora. Deu tempo ainda de devanear, rapidamente, se numa Terra inteira feita de sorvete de flocos, ao invés da que conhecemos, existiria telefone ou algo assim, e chegou à conclusão que, se tivesse, eles definitivamente não tocariam às 3h45 da manhã.

Levantou-se da cama, espreguiçou-se. Por algum motivo que ninguém sabe explicar, João tinha disposto as coisas no seu quarto de forma que ele não conseguisse atender o telefone deitado em sua cama (forma obviamente mais cômoda pra ele mesmo). Mas ninguém se preocupa muito com isso quando percebe que ele também não consegue assistir à sua TV deitado na cama. Claro que já perguntaram pra ele sobre isso, mas ele tinha coisas mais importantes pra pensar no momento e não deu atenção à pergunta, ficando nervoso com o chato que estava perguntando.

Essa era uma constante na vida de João, aliás. Ficar nervoso com os outros era algo que ele sempre fazia, alguns diziam que por diversão, outros que por mal-humor. Ele mesmo não sabia explicar. Justificava pra si mesmo que era tudo culpa dos outros, e não dele. E vivia assim, nesse nervosismo eterno.

O fato é que, por mais que ele soubesse que era muito mal-humorado, e sem motivos pra isso, ele jamais dera o braço a torcer quando seus amigos lhe diziam isso. Acordava mal-humorado e não cumprimentava ninguém, xingava todos que lhe atrapalhavam em seu serviço, não sorria quando lhe elogiavam (algo muito raro, na sua opinião) e não achava graça nas piadas dos outros. Vale salientar que a maioria de seu mal-humor era completamente injusto para com as outras pessoas, e todos, exceto ele, percebiam isso.

O telefone parou de tocar, obviamente, assim que João o tirou do gancho. No caminho que forçou o aparelho a percorrer entre sua base (a do telefone) e sua orelha (a de João), ainda teve tempo de amaldiçoar por antecedência a pessoa que inventou os fios que possibilitam que o sistema telefônico funcione.

“Alô?”. Uma voz feminina do outro lado da linha. Sua namorada, aquela que mesmo morando longe o fez enxergar que Luara, uma amiga que ele tinha, era apenas uma amiga mesmo.

No dia seguinte, ninguém em casa entendeu muito bem quando ele disse logo pela manhã que ia até a rodoviária buscar alguém, mas voltava já. Mas ninguém entendeu absolutamente nada quando ele desejou uma boa aula e um bom dia a todos, roubou uma torrada da mesa do café da manhã e saiu sorrindo, cantarolando, em direção a seu carro.

Eu juro que qualquer semelhança com fatos e pessoas reais é mera coincidência.

23 de Julho de 2007

Rotina…

Autor(a): CoN

Uma garoa fina caia agora, depois da grande chuva barulhenta que o acordou. A noite era fria, daquelas que ele gostava. Tinha desistido de lutar contra a insônia. Quando achou que a havia vencido, veio a chuva, que o despertou novamente.

A poltrona na sala era muito mais confortável que seu colchão velho. O silêncio da noite era muito mais gostoso que a barulheira que se instalava em sua cabeça quando deitava para dormir.

Sempre tivera esse problema. Por mais sono que tivesse, ao deitar-se, pensamentos invadiam-lhe a cabeça e não davam sossego. A solução era esperar acordado. E hoje, especificamente, resolveu assumir sua condição de sem-sono, e levantar da cama.

Acendera seu narguilé O tinha desde tempos de faculdade. Era uma das poucas coisas que hoje ainda o davam prazer. A fumaça que o objeto liberava enchia o ambiente e deixava tudo ainda mais perfeito. Aquela era uma noite perfeita.

Apagou a luz. Ficou saboreando a menta que invadia seus pulmões, ouvindo os poucos carros na rua lá embaixo, pensando na vida. Tinha alguns serviços pra terminar, mas não era o caso, não naquele momento. Pensou em seus amigos, poderia até ligar pra algum deles, naquela hora, eles não iriam gostar. E, como mágica, o telefone tocou.

- Alô?

- Sou eu…

Dito isso, a voz feminina emudeceu, tampouco ele disse nada. Um segundo, dois, e o sinal de ocupado.

Deu sua última tragada no narguilé. Isso acontecia há anos, e por mais esquisito que fosse, era normal para eles. Agora, ambos com problemas de insônia, conseguiriam dormir sossegados. Liberou a fumaça, apagou a brasa que queimava. Deitou-se ali mesmo, no sofá, e dormiu. Precisava urgentemente de um colchão novo em sua cama.

27 de Junho de 2007

Ressaca

Autor(a): CoN

Continuando com novidades, agora os textos do Histórias pra Boi Dormir estão organizados por categorias (que são, em geral, o assunto, tema ou gênero do texto). Assim, através dos links na barra lateral, você pode ver todos os textos de uma mesma categoria (o mesmo texto pode estar em várias categorias). Além disso, há categorias de cada autor do blog, e categorias para histórias divididas em partes. Aproveitem para rever textos antigos e divirtam-se!

João acordou com um mau-humor maior do que já era esperado, já que ele sempre acordava de mau-humor. Dessa vez, ele acordou de ressaca. Além do mal-estar geral, sua cabeça explodia de dor. Levantou-se, foi até o banheiro. Vomitou.

Lembrou-se que ainda tinha que concertar seu computador, que, pra variar, tinha dado problema sem nenhum motivo aparente. Mas decidiu que não estava em condições e, em vez disso, sentou-se na sala com seus companheiros de república.

Conversavam sobre algo que passava na tv, que João não fazia sequer a menor questão de descobrir o que era. Sua cabeça girava de um jeito estranho, e sentiu que passava mal. Correu para o banheiro de novo.

Refeito, temporariamente, resolveu que era melhor se deitar em sua cama. Tinha muita coisa pra pensar, e sempre que estava nessa situação, a cama era o melhor lugar. Lá, devaneava sobre sua vida, seus problemas (que, por mais que os outros insistissem em dizer que não, eram muitos) e sobre o que mais quisesse.

Obviamente, o pensamento voôu direto para Luara, antiga amiga sua por quem tinha um carinho especial, e sua conversa com ela na noite anterior. Ele havia saído para buscar comida em um barzinho próximo quando a viu, no mesmo bar, com um conhecido de ambos. Cumprimentou-os e, conversando, descobriu que estavam namorando. Após isso, ele não sabia sobre o que mais conversaram, pois ele não havia prestado atenção.

O fato é que ele se sentiu furioso. Não que isso fosse estranho, muitas coisas deixavam-no furioso, bravo, estressado ou qualquer coisa parecida, e nesse caso não foi diferente. O fato é que a furia se misturava com um sentimento de angústia, angústia por saber que ela estava namorando um cara que não era ele. Não que algum dia eles tivessem namorado, ou sequer tivessem tido qualquer princípio de relacionamento. Ele nunca teve coragem de dizer nada a ela sobre o que sentia, e agora não seria diferente. Mas, que isso foi fato crucial pra ele resolver se embebedar, isso foi.

Enquanto viajava por pensamentos de raiva, angústia, tristeza e outras coisas que, se algum de seus amigos soubesse que passavam por sua cabeça, o enxeria muito o saco, ouviu alguém lá da cozinha gritar “Jão, acabei de comprar sorvete de flocos, chega aí”. Coincidência ou não, João tinha frequentemente uma estranha vontade de que o mundo se tornasse uma enorme bola de sorvete de flocos. Não é que ele realmente gostasse de sorvete de flocos; mas a idéia do planeta inteiro ser branco, gelado, escorregadio e cheio de pequenas “impurezas” pretinhas era fascinante. E, geralmente, seria também uma forma dele fugir desse mesmo mundo.

Foi tomar o sorvete.

Por algum motivo esquisito, depois de um comentário, os comentários deste post (e apenas deste post) não abrem mais. Infelizmente.

3 de Junho de 2007

Fuga

Autor(a): CoN

Minha cabeça girava e tudo que eu queria era escrever. Escrever pra por pra fora tudo que tava engasgado há bastante tempo já, pra exprimir o que eu andava sentindo, tudo que me enchia a cabeça. Mas, essa mesma cabeça rodava, nesse instante, pela dose excessivamente grande de uísque que agora se alastrava pela minha circulação e me embriagava.

Bebi. Havia prometido, desde o último porre, que não beberia mais. Mas não dava. A vida, ah, a minha vida, aquela… aquela bosta! Era tudo que eu não quis pra mim. Não, mentira, era tudo que eu sempre quis. O problema é que eu não sabia o que queria, não sabia o que me esperava. E agora, era tarde. Eram 3h35 da manhã, tardíssimo pra alguém que tinha que acordar cedo e ir trabalhar.

Mas, naquele momento inebriante, eu só queria escrever. Minha mão fugia ao meu controle enquanto tentava, em vão, fazer os primeiros rabiscos legíveis com a caneta na folha de papel. Mas também, o que eu escreveria? Que a vida que queriam pra mim não era a vida que eu realmente deveria querer? Era ridículo, fugia completamente à idéia de pessoa sensata e bem sucedida que faziam de mim, que eu fazia de mim. Mas, na minha cabeça rodopiante, essas idéias tinham completo fundamento, todo o sentido do mundo!

Debrucei-me sobre a mesa. A luminária iluminava minha orelha esquerda, a folha de papel, agora amassada e cheia de rabiscos, mais algumas porcarias tolas e um porta-retrato. Minha cabeça ainda rodava muito, e o álcool no sangue fazia a mulher estampada no porta-retratos parecer muito mais bonita do que ela era, e ela era muito bonita. Ao vê-la, trouxe-a pra perto de mim, cerrei os olhos, adormeci.

No dia seguinte, sóbrio, sem rodopios, sem álcool, sem insanidades, minha vida parecia muito, muito melhor. Joguei fora o caderno, a caneta, a garrafa de uísque, e o porta-retrato. A foto guardei, numa caixa, esquecida dentro de um armário. Ela poderia servir pra rir do passado, num futuro muito, muito distante.

Eu deveria ter postado a continuação do último texto, ou deixado o Diego postar. Mas, esse texto surgiu de repente, e precisava postá-lo. Sei que o Diego não liga, nem o último texto. A continuação ainda vem.

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