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9 de Novembro de 2007
Autor(a): CoN
A noite fria ia caindo na cidade. As ondas do mar se agitavam, o vento balançava as folhas das palmeiras. As poucas pessoas que se via nas ruas andavam a passos largos, visando suas casas antes do toque de recolher da noite.
Já se via patrulheiros nas ruas. Suas capas pretas, o horrível emblema da opressão em seus braços, andando em duplas pelas vielas, ruas e avenidas da cidade. Desde o início da opressão, os patrulheiros foram o símbolo máximo do medo e do fim da liberdade.
Em um apartamento na orla da praia, seis jovens conversavam em volume mínimo. Quatro garotas, dois rapazes, discutiam detalhes sobre sua parte na manobra dessa noite.
-Risco, todos nós sabemos que corremos.
E sabiam. E estavam dispostos a corrê-lo. Se sacrificariam, se necessário, pela liberdade, pela possibilidade de se expressar, pelo direito de ser feliz.
- Então é isso… – quem falava era Juliana. Nesse grupo, não havia líderes ou comandados, mas se houvesse um líder, ela era ideal pro cargo. – Esperaremos aqui até que dêem o sinal combinado. Então, nos espalhamos e criamos aquele caos. Os patrulheiros virão, essa é a intenção, mas ainda assim será perigoso. Temos que estar todos prontos. Estão equipados?
Todos assentiram. Via-se que tinham rádios de comunicação, lanternas, granadas de fumaça, algum combustível, tochas e revolveres. Embora o plano estivesse bem determinado, todos estivessem bem equipados e dispostos a correr riscos, ainda assim, a tensão no pequeno apartamento era enorme.
O tempo foi passando. Os seis estavam dispersos pelo apartamento, ocupados em seus próprios pensamentos. Lá fora, o silêncio do medo que a noite trazia reinava sobre o uivo do vento e os ruídos do agito marítimo. De repente, a tensão se aumentou ao máximo quando o telefone de Juliana tocou. Todos se olharam nervosos: o plano previa que o toque seria no telefone de Tiago, e só em caso de problema, fariam contato com Juliana. A garota se adiantou, atendeu à chamada:
- Abortar! Fomos descobertos. Fujam!
O rosto da garota ficou branco. Mais um plano frustrado. Olhou seus companheiros, manteve a firmeza, mandou-os fugir. A saída do prédio foi tumultuada, patrulheiros apareceram, houve tiros, correria, gritos, morte.
Mais tarde, refugiada, em segurança (mesmo que frágil e temporária), desabou. Sentiu-se fraca, impotente. A opressão continuava, o medo continuava, o autoritarismo continuava. A cada novo plano, a cada nova tentativa, um novo fracasso. Mas era preciso continuar, erguer a cabeça e lutar. Levantou, se recompôs. Fez algumas ligações, mandou alguns recados. Era hora de recomeçar a pensar.
Esse texto foi publicado dia 23/10/07 no Mas que loucura, blog em que eu esporadicamente escrevo algumas crônicas. Tá, essa foi a primeira e única até agora, mas outras virão.
18 de Agosto de 2007
Autor(a): CoN
Sempre fui um cara decidido. Era sempre eu que decidia onde ir, quando os amigos estavam em dúvida sobre o que fazer a noite; nunca tive dúvidas quanto a que carreira seguir quando chegou a hora de decidir; sempre tomava decisões (as vezes não as melhores, concordo) e assumia aquilo até o fim (não por teimosia, simplesmente porque nunca me pareceu necessário agir de outra forma). Sempre fui um cara decidido. Exceto aquela noite.
Estávamos em quatro ou cinco, não me lembro, no carro. Rolava um som alto, cigarros, bebidas. Viajávamos, se não me engano, em direção ao Guarujá, ou outra praia qualquer do litoral sul de São Paulo. Perceba que os detalhes me escapam, infelizmente, mas é que aquela é uma noite que eu gostaria de esquecer por completo.
O fato é que viajávamos mas estávamos cansado, resolvemos parar em algum lugar no caminho pra descansar. Saí da pista principal por um acesso que havia, mas, devido à bebida, ou à mais pura falta de sorte, cai na única pista que eu não deveria ter caído. Era a entrada de uma fazenda, ou assim pareceu: tinha uma cerca, e o asfalto acabava ali. A pequena estrada seguia reto por um tempo, depois fazia uma curva pra esquerda. Tudo era escuridão.
Decidimos por entrar ali mesmo, parar o carro e dormir. Danem-se os perigos, estávamos bêbados e loucos, nem lembramos que existiria perigos. Carro parado, vimos uma luz se acender lá na frente. Pequena e fraca, foi chegando mais perto, uma lanterna. Obviamente, uma pessoa segurava a lanterna, e caminhava em nossa direção. Silenciamos, observando, mais espantados que amedrontados, infelizmente. O medo talvez tivesse nos impedido da besteira.
Foi muito rápido. Um riu e disse “acelera, atropela esse filho da puta” e logo essa era a idéia geral. Foi o que eu fiz. Acelerei em direção a ele. O coitado teve tempo de se sentir surpreso, imagino eu, antes de levar uma baita pancada e cair.
Morto.
A palavra dita pelo meu colega penetrou nos meus tímpanos de forma tão lenta e devastadora que quase eu morri, de fato. Era óbvio, claro demais, que o pobre coitado morreria. Mas a bebida, a desgraçada, faz coisas malucas. É bom poder colocar a culpa nela. O fato é que ali estava ele, morto, e a gente, sem saber o que fazer. Os outros pensaram rápido e se decidiram pela primeira vez. Abandonar, deixar pra trás, esquecer. Me olharam. Eu ainda estupefato. Não sabia, não queria, não podia. A cena, só de lembrar, me dá arrepios. Foram minutos longos, terríveis, até que eu finalmente concordasse.
Fugimos. Não sei o que foi feito do pobre coitado. Sei que ele me acompanha até hoje. Me visita em sonhos, me aterroriza em pesadelos. Nunca pude esquecer tudo aquilo, como foi combinado que faríamos. Mas saiba, aquela foi minha única oportunidade de estar indeciso. Sempre fui um cara decidido.
23 de Julho de 2007
Autor(a): CoN
Uma garoa fina caia agora, depois da grande chuva barulhenta que o acordou. A noite era fria, daquelas que ele gostava. Tinha desistido de lutar contra a insônia. Quando achou que a havia vencido, veio a chuva, que o despertou novamente.
A poltrona na sala era muito mais confortável que seu colchão velho. O silêncio da noite era muito mais gostoso que a barulheira que se instalava em sua cabeça quando deitava para dormir.
Sempre tivera esse problema. Por mais sono que tivesse, ao deitar-se, pensamentos invadiam-lhe a cabeça e não davam sossego. A solução era esperar acordado. E hoje, especificamente, resolveu assumir sua condição de sem-sono, e levantar da cama.
Acendera seu narguilé O tinha desde tempos de faculdade. Era uma das poucas coisas que hoje ainda o davam prazer. A fumaça que o objeto liberava enchia o ambiente e deixava tudo ainda mais perfeito. Aquela era uma noite perfeita.
Apagou a luz. Ficou saboreando a menta que invadia seus pulmões, ouvindo os poucos carros na rua lá embaixo, pensando na vida. Tinha alguns serviços pra terminar, mas não era o caso, não naquele momento. Pensou em seus amigos, poderia até ligar pra algum deles, naquela hora, eles não iriam gostar. E, como mágica, o telefone tocou.
- Alô?
- Sou eu…
Dito isso, a voz feminina emudeceu, tampouco ele disse nada. Um segundo, dois, e o sinal de ocupado.
Deu sua última tragada no narguilé. Isso acontecia há anos, e por mais esquisito que fosse, era normal para eles. Agora, ambos com problemas de insônia, conseguiriam dormir sossegados. Liberou a fumaça, apagou a brasa que queimava. Deitou-se ali mesmo, no sofá, e dormiu. Precisava urgentemente de um colchão novo em sua cama.
3 de Junho de 2007
Autor(a): CoN
Minha cabeça girava e tudo que eu queria era escrever. Escrever pra por pra fora tudo que tava engasgado há bastante tempo já, pra exprimir o que eu andava sentindo, tudo que me enchia a cabeça. Mas, essa mesma cabeça rodava, nesse instante, pela dose excessivamente grande de uísque que agora se alastrava pela minha circulação e me embriagava.
Bebi. Havia prometido, desde o último porre, que não beberia mais. Mas não dava. A vida, ah, a minha vida, aquela… aquela bosta! Era tudo que eu não quis pra mim. Não, mentira, era tudo que eu sempre quis. O problema é que eu não sabia o que queria, não sabia o que me esperava. E agora, era tarde. Eram 3h35 da manhã, tardíssimo pra alguém que tinha que acordar cedo e ir trabalhar.
Mas, naquele momento inebriante, eu só queria escrever. Minha mão fugia ao meu controle enquanto tentava, em vão, fazer os primeiros rabiscos legíveis com a caneta na folha de papel. Mas também, o que eu escreveria? Que a vida que queriam pra mim não era a vida que eu realmente deveria querer? Era ridículo, fugia completamente à idéia de pessoa sensata e bem sucedida que faziam de mim, que eu fazia de mim. Mas, na minha cabeça rodopiante, essas idéias tinham completo fundamento, todo o sentido do mundo!
Debrucei-me sobre a mesa. A luminária iluminava minha orelha esquerda, a folha de papel, agora amassada e cheia de rabiscos, mais algumas porcarias tolas e um porta-retrato. Minha cabeça ainda rodava muito, e o álcool no sangue fazia a mulher estampada no porta-retratos parecer muito mais bonita do que ela era, e ela era muito bonita. Ao vê-la, trouxe-a pra perto de mim, cerrei os olhos, adormeci.
No dia seguinte, sóbrio, sem rodopios, sem álcool, sem insanidades, minha vida parecia muito, muito melhor. Joguei fora o caderno, a caneta, a garrafa de uísque, e o porta-retrato. A foto guardei, numa caixa, esquecida dentro de um armário. Ela poderia servir pra rir do passado, num futuro muito, muito distante.
Eu deveria ter postado a continuação do último texto, ou deixado o Diego postar. Mas, esse texto surgiu de repente, e precisava postá-lo. Sei que o Diego não liga, nem o último texto. A continuação ainda vem.
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