Lendo textos da categoria Humor »
19 de Novembro de 2007
Autor(a): Diego
-Pedro?
-Hã?
-Por que estamos aqui?
-Porque eu não consigo dirigir com essa chuva…
-Não seu idiota, o que eu quero saber é o porquê de estarmos vivos, entende?
-Entendo sim. Mas não sei a resposta para a sua pergunta.
-Não tem nem mesmo uma suposição?
-Não, e nem preciso. Eu existo e vou deixar de existir, pra mim isso basta.
-Como você é conformista! Não sente nem um pinguinho de vontade de saber o sentido de tudo isso?
-Sim, eu sinto. Mas não a ponto de perder meu tempo pensando nisso.
-Eu duvido.
-Pois é a mais pura verdade. Em que mudaria a minha vida se eu soubesse que surgi de uma explosão, se um velho barbudo resolveu que eu devia existir ou o que seja? Em nada!
-Isso não é verdade.
-Então me diga sua suposição acerca da origem do universo e em que isso muda a sua vida,
-OK. Eu acho que…
-Hey, vocês dois, larguem dessa tequila e venham aqui me ajudar a tirar toda essa carne da churrasqueira.
-Tá ai uma coisa que muda minha vida. A comida está pronta. Você fica aqui refletindo, olhando as estrelas, orando ou o que for. Eu vou lá comer.
-Mas e o carro?
-Pro inferno com o carro. Não vou mais embora daqui até acabar a bebida e a carne. Esse teu papo fodeu com o meu sono.
-E de onde você acha que vem essa carne?
-Cê tá me zuando, né?
-Não, não tô não. A gente vem do mesmo lugar que ela, a ainda assim a gente come.
-E dai? Vai dizer agora que você não come carne?
-Como sim, mas queria entender tudo isso.
-Não tem o que entender. Mataram o boi, fatiaram o boi, salgaram o boi e, se ninguém me interromper com esse papo idiota, vão fatiar o boi de novo.
“Cinco minutos de silêncio”
-Mas você tem noção de que a gente é assim por dentro também, não tem?
- Meu, você tá deixando as meninas enojadas. Olha a cara delas.
-Elas que se fodam. Você tem noção disso ou não?
- Tenho sim, mas e dai?
-E dai que não faz sentido duas criaturas diferentes serem exatamente iguais por dentro!
-Lógico que faz.
-Meu, você não fala coixa com coisa. Não sabe quando ceder, quando admitir que está errado.
-Sei sim, eu admito que preciso beber mais. Me acompanha?
-Não, vou lá perguntar pro Digo o que ele acha.
-Acha do que?
-Ué, disso tudo que eu te perguntei.
-Posso ir junto?
-Por que? Pensei que você não se importasse com isso.
-E não me importo, mas adoro vê-lo puto.
-Ah. Vamo lá então.
CONTINUA (ou não).
2 de Novembro de 2007
Autor(a): Jaque (www)
Sempre me achei um pára-raio de doido…
Num dia quente dusinferno, estava eu no ponto de ônibus quando chegou uma dona que usava uma tiara com um rabo de cavalo, sandálias havaianas verdes, um jeans meio cansado, uma bolsa enorme e uma camiseta toda colorida.
- Aqui passa o Caprioli, moça?
- Passa, sim. Acabou de passar um. Mas daqui a pouco passa outro.
- Tá bom.
E sentou-se ao meu lado. Alguns minutos depois de silêncio árduo, seco e quente; ela chega mais perto, me encara e diz:
- Sabe o que é fia? É que eu tomei um golim de gabiroba…
Assim assim…do nada!!! Fiquei pasma!! E ela ainda tinha uma cara de desculpa por ter tomado ‘um golim’ de gabiroba. Como se tivesse pedindo desculpas por ter arrotado.
Além de atrair doidos, atraio bêbados - uma espécie de caso disjunto dos insanos e que contém certa dose de insanidade. Uma amiga teve uma fase bizarra na faculdade e chegava a tomar uns porres épicos. E quem segurava a sua cabeça enquanto chamava o Raul abraçada ao trono era eu. Até já dei banho de mangueira lá na roça em uma renca de amigas pés-de-cana na época da faculdade nos pós-prova. Num coquetel de congresso socorri uma garota que cantava mal pacarái e cismou que queria cantar, resultado: zoneou o coquetel. Até levei uma conhecida para o hospital para tomar glicose. Ela olhou para a médica, sorriu e perguntou com voz arrastada:
-Ozê tem injezão pra palhazo, moza?
Putz! Alguns bêbados são realmente pródigos em frases absurdamente geniais. Dizer que o álcool desenrola a língua seria sacrilégio, mas os romanos sabiam bem do que estavam falando quando diziam: in vino veritas.
- Olha, tá vindo um Caprioli.
- Ihhhh, moça! Nem é esse “balofo” aí que eu quero. Né não, to te falando! É outro Caprioli…
- Não mesmo? A senhora tem certeza?
- É que eu tomei gabiroba. Sabe como é, moça?
Ai…essa cara de desculpa é que me matava! Quando vi que o motorista do ônibus era gordinho, não levou muito tempo para eu perceber que a dona não estava esperando um ônibus. Ela estava esperando era o motorista. A dona tava é de namorico!! Vê se pode? Ou será que era o motorista da transportadora de gabiroba?
- Ô moço! Faz isso não, moço! Se ocê der mais um passo, ocê cai!
O rapazinho que empurrava o carrinho de pipocas olhou pra ela com uma cara de quem pensa “…diacho de dona mais doida…” e continuou empurrando o carrinho. Mas a dona insistiu:
- Mozoooo! Vozwe… vaaai garrrivw…
E ela olhou para mim:
- É que eu tomei gabiroba. Sabe como é, moça?
Ow sô!!! Ela não enrolava a língua pra falar gabiroba nem se eu desse mais um golim de gabiroba pra ela!!! Lamentei tanto não estar com a máquina digital pra fazer um vídeo e colocar no youtube e mostrar a cara de desculpas que a dona do golim de gabiroba fazia. Cerca de 11 em cada 10 palavras do nosso ‘diálogo’ era gabiroba. Fui pro hotel rindo sozinha, abri uma latinha de cerveja e fiquei pensando em como alguém pode se sentir tão mal por ter tomado gabiroba. Confesso que até deu vontade.
E ainda bem que vontade é algo que dá e passa.
19 de Outubro de 2007
Autor(a): CoN
Era meio dia e dez, um sol desgraçado queimava o cocoruto da cabeça semi-calva do rapaz jovem que andava apressado pelas ruas movimentadas. Suava bastante dentro de seu terno azul marinho, e sentiu-se extremamente bem quando entrou no ambiente refrigerado do banco.
Pegou a longa fila do caixa. Tinha se oferecido (e já estava arrependido) para depositar um dinheiro para seu chefe, já que ele passaria perto do banco. Um senhor idoso brigava no caixa por algum motivo, enquanto mais oito pessoas na fila esperavam sua vez.
Enquanto deixava vagar seu pensamento por lugares onde gostaria de estar naquele momento e coisas que gostaria de estar fazendo, ouviu um burburinho que o trouxe de volta. E tudo aconteceu de repente.
Gritos, um tiro, e quatro figuras encapuzadas anunciaram o assalto. Todos pro chão. Caiu e bateu a cabeça com força em alguma quina, mas nem ligou. Seu coração estava disparado, nunca havia passado por uma situação de assalto antes. Suava frio agora, queria mais que tudo poder estar de volta à rua quente novamente, longe dali. Clima tenso, os homens encapuzados retiravam dinheiro do caixa agora, enquanto o segurança jazia perto da porta com uma contusão na cabeça.
Sirenes tocaram lá fora! Os bandidos perceberam o problema, rapidamente puxaram uns e outros para se protegerem, escudo humano. A polícia cercou o prédio. Na cabeça do jovem executivo, um misto de tranqüilidade e frustração lhe abatia. A polícia nunca lhe inspirou confiança, mas agora era sua única alternativa de sair bem daquela situação. Sentia a imagem começar a rodar, talvez de medo ou desespero.
A polícia anunciou qualquer coisa lá fora, ele não ouviu. Não era pra ele mesmo. Os bandidos se comunicaram, começaram uma negociação. De vez em quando gritavam com as pessoas no chão, deram mais dois ou três tiros para amedrontar. O jovem sentia-se atordoado, não sabia o que estava acontecendo. A situação era desesperadora, sua cabeça doía e ele estava com medo, mas isso não era motivo para ele estar fraco, com a vista escurecendo e tremendo. Sua cabeça doía! Ele lembrou-se, passou a mão onde bateu, e sentiu uma grande quantidade de sangue. O ferimento havia sido grave. Pensou em tentar dizer isso aos bandidos, mas, por medo ou falta de forças, não o fez.
O tarde se estendeu, a situação acabou resolvida. Os bandidos se entregaram, a polícia entrou no banco. Os reféns foram libertados. O dinheiro devolvido. O segurança, que havia sido imobilizado e atacado com uma coronhada na cabeça foi levado a um hospital, mas sem danos graves. E o corpo de um jovem executivo morto foi levado para reconhecimento pela família. Aparentemente, morrera por perder muito sangue, e a polícia ainda não sabia em que momento os bandidos o feriram, já que os mesmos inventaram uma história mentirosa sobre o homem ter se machucado na queda ao chão.
14 de Setembro de 2007
Autor(a): CoN
Um telefone tocou. Um ato rotineiro na vida moderna. Mas não às 3h45 da manhã. E, no fuso horário onde João, seu quarto e o telefone do seu quarto (que, por acaso, era o telefone que estava tocando) estavam, eram 3h45 da manhã.
João, em alguns segundos de atordoamento por acordar, amaldiçoou Graham Bell por ter inventado o telefone, seus amigos por um dia terem tido a idéia de comprar uma linha telefônica pra cada quarto da república onde moravam, os funcionários da empresa telefônica por permitirem que o sistema de telefonia esteja ligado e funcionando a essa hora da madrugada e, principalmente, a pessoa sem-noção que estava ligando àquela hora. Deu tempo ainda de devanear, rapidamente, se numa Terra inteira feita de sorvete de flocos, ao invés da que conhecemos, existiria telefone ou algo assim, e chegou à conclusão que, se tivesse, eles definitivamente não tocariam às 3h45 da manhã.
Levantou-se da cama, espreguiçou-se. Por algum motivo que ninguém sabe explicar, João tinha disposto as coisas no seu quarto de forma que ele não conseguisse atender o telefone deitado em sua cama (forma obviamente mais cômoda pra ele mesmo). Mas ninguém se preocupa muito com isso quando percebe que ele também não consegue assistir à sua TV deitado na cama. Claro que já perguntaram pra ele sobre isso, mas ele tinha coisas mais importantes pra pensar no momento e não deu atenção à pergunta, ficando nervoso com o chato que estava perguntando.
Essa era uma constante na vida de João, aliás. Ficar nervoso com os outros era algo que ele sempre fazia, alguns diziam que por diversão, outros que por mal-humor. Ele mesmo não sabia explicar. Justificava pra si mesmo que era tudo culpa dos outros, e não dele. E vivia assim, nesse nervosismo eterno.
O fato é que, por mais que ele soubesse que era muito mal-humorado, e sem motivos pra isso, ele jamais dera o braço a torcer quando seus amigos lhe diziam isso. Acordava mal-humorado e não cumprimentava ninguém, xingava todos que lhe atrapalhavam em seu serviço, não sorria quando lhe elogiavam (algo muito raro, na sua opinião) e não achava graça nas piadas dos outros. Vale salientar que a maioria de seu mal-humor era completamente injusto para com as outras pessoas, e todos, exceto ele, percebiam isso.
O telefone parou de tocar, obviamente, assim que João o tirou do gancho. No caminho que forçou o aparelho a percorrer entre sua base (a do telefone) e sua orelha (a de João), ainda teve tempo de amaldiçoar por antecedência a pessoa que inventou os fios que possibilitam que o sistema telefônico funcione.
“Alô?”. Uma voz feminina do outro lado da linha. Sua namorada, aquela que mesmo morando longe o fez enxergar que Luara, uma amiga que ele tinha, era apenas uma amiga mesmo.
No dia seguinte, ninguém em casa entendeu muito bem quando ele disse logo pela manhã que ia até a rodoviária buscar alguém, mas voltava já. Mas ninguém entendeu absolutamente nada quando ele desejou uma boa aula e um bom dia a todos, roubou uma torrada da mesa do café da manhã e saiu sorrindo, cantarolando, em direção a seu carro.
Eu juro que qualquer semelhança com fatos e pessoas reais é mera coincidência.