Cagadas no mundo pós-contemporâneo
Autor(a): CoN
- Abre essa porta!
Acordei assustado com o grito. Olhei no relógio do braço esquerdo - eram quatro horas da manhã, mas em algum planeta distante que eu já não lembrava mais nem o nome. Contudo, no do braço direito…
- Abre!!
Nunca soube a hora no relógio do braço direito, pois não cheguei a olhar. O que não fazia diferença, já que ele marcava a hora de algum outro planeta distante.
Levantei da cama, e, após o terceiro grito vindo do corredor, meu cérebro se tocou que talvez fosse uma boa idéia abrir a porta. Meu corpo, que de início não concordou com meu cérebro (e essa era uma constante em minha vida) acabou cedendo, e, enquanto ambos ouviam o quarto grito, se juntaram e abriram a porta.
No corredor de paredes brancas (sujas e mal cuidadas), em pé, com um olhar mortífero e uma cara zangada (embora ele não pudesse mudar de expressão e essa pudesse ser considerada sua cara normal), estava o capitão. Àquela visão, meu corpo bradou ao meu cérebro que havia sido uma péssima idéia abrir a porta. O cinzento, resoluto, teve que concordar.
-Bom dia! Ou seria boa tarde? - essa dúvida sempre me afligia quando voava pelo espaço aberto - talvez boa noite…
- Seja dia, tarde ou noite, não tem nada de bom - o capitão disse isso sem mover sequer um músculo da face. Talvez isso se devesse ao fato de que, sendo de uma espécie oriental muito esquisita, ele não possuia músculos na cara, e emitia sons de uma forma inexplicável - pelo menos para mim, que nunca me preocupei em descobrir.
- Não? Ah… e por que não?
- Hum… - me encarou como se quisesse me explodir, mas não pudesse. De fato queria, e de fato, não podia - talvez porque, depois de ter colocado a nave no automático, trancado a ponte de comando e ter ido dormir, alguém conseguiu, de uma forma ainda desconhecida para mim, invadir a ponte e, usando a minha senha, zonear a nossa rota.
Senti que, de alguma forma, eu poderia estar relacionado a esse fato esquisito. Mas, por mais que tentasse, não me lembrava de nada. Meu corpo, nesse momento, tentava me lançar para longe dali, mas minha cabeça me dizia que era melhor ficar. Fui ficando, e ele continuou.
- Agora, neste momento, estamos encalhados entre dois buracos negros e uma fenda espaço-temporal, que pode nos jogar sabe-se-lá onde! Qualquer movimento em falso pode nos matar ou mandarmos tempo a dentro. - nesse momento, ele, mesmo sem músculos faciais, estreitou os olhos e me olhou profundamente - Você tem idéia de como isso aconteceu?
Uma forçada mais forte na memória me trouxe tudo à tona. E eu, de súbito, soube de quem era a culpa (surpreendentemente, não era minha!): era dela!
Continua…
Texto clara, descarada e bizarramente inspirado nas aventuras de Arthur Dent e Ford Prefect, na trilogia que ja deve ter uns cinco livros, de O Guia do Mochileiro das Galáxias.
