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30 de Novembro de 2007

A grande piada

Autor(a): CoN

Ricardo acordou. E tudo a sua volta era preto. Uma escuridão total. De início, achou que tinha ficado cego. Mas, depois de se movimentar um pouco, tatear em volta e tudo mais, descobriu que se estava cego, também estava louco, Aquele, definitivamente, não era seu quarto. Deitou de novo, fechou os olhos. Esperou alguns minutos. Abriu-os novamente.

Agora tudo era branco, ele se via, deitado em um sofá que ele conhecia, o sofá da casa da sua avó, um sofá que ele sempre considerou horrível, uma piada de mal gosto de quem o fabricou. Mas, com certeza, aquela não era a casa de sua avó.

Então, uma voz falou com ele. Era uma voz grave, profunda, daquelas que se ouve em filmes quando representam Deus falando com os humanos. Coincidência ou não, naquele momento, Deus falava com Ricardo, um humano.

-Filho, a brincadeira acabou.

Ele procurou em volta pelo possuidor da tal voz profunda. Não o encontrou.

- Quem tá aí?

Um silêncio. E uma risada. Tão profunda quanto a voz que havia falado antes. Claro, era a mesma voz rindo.

- Sabe, rapaz, foi engraçado todo esse tempo. Eu ri um bocado. Mas, ah, depois de um tempo, comecei a perder o jeito. E você começou a sacar. Fiquei com medo de você contar pra alguém. Então, a brincadeira acabou pra você.

Ricardo não estava entendendo nada. Mas também, não prestava muita atenção. Se preocupava em procurar pela pessoa escondida, ou pela caixa de som escondida, ou pelo que quer que fosse que produzia aquela voz que falava com ele. Mas, naquele branco sem fim, que quase cegava seus olhos, não encontrava absolutamente nada.

- Ei, tem como você, voz-sem-dono, me explicar o que raios tá acontecendo aqui, onde eu estou, e onde você está?

Um suspiro grave e profundo. E então:

- Ah, céus. Te achava mais esperto, Ricardo. Mas vamos lá.

“O que está acontecendo aqui é o seguinte: sabe quando você acordava de manhã, no dia seguinte de ter jogado aquele seu guarda-chuvas velho fora, antes de comprar um novo, e estava uma chuva infernal? Sabe quando você estava morrendo de sono, e seus clientes ligavam no meio da madrugada com uma emergência no escritório, e você não tinha alternativa a ir até lá resolver o problema? Sabe tudo aquilo de bizarro que acontecia com você, que você não acreditava que pudesse estar acontecendo, e as vezes pensava consigo mesmo que só podia ser uma piada de muito mal gosto de alguém com você? Pois é. Você estava certo.”

Um silêncio se instalou no local. Ricardo ainda não entendia muito bem. Quis perguntar, mas resolveu ficar quieto esperando por uma continuação. Que veio.

“Bom, você estava certo. Sua vida, desde o começo, foi uma grande piada. Sabe, talvez eu até te deva algumas desculpas, tinha hora que eu pegava pesado. Fazer aquele carrinho derolemã que estava a 5km/h quebrar a rodinha perto daquele buraco, só pra você cair e quebrar o braço foi sacanagem. E também teve a vez que você foi no médico tratar da acne (que por si só já foi uma grande sacada minha) e saiu de lá direto pro hospital, com aquela doença extremamente bizarra que o médico descobriu em você, raríssima, nem eu lembro o nome! Na hora achei muito engraçado, mas acho que exagerei. Então, me desculpa.”

Ricardo lembrou dessas coisas. E ficou pensando como ele começou a achar, a partir de um certo momento de sua vida, que tudo no mundo conspirava contra ele, que tudo era uma grande brincadeira com ele. E tudo ficou claro!

- Você… você, por acaso… Você por acaso é Deus?!?!

- Opa, vejo que você começou a ligar as coisas! Muito bom, muito bom…

“Sim, eu sou Deus. Teve uma hora que te zoar daquele jeito perdeu a graça. Sabe, você já tiha se acostumado, pra você aquilo começou a parecer normal. E eu tinha perdido o jeito, não conseguia mais invetar grandes piadas e brincadeiras pra fazer com você… Sabe, teve uma vez…”

Deus continuou falando. Ricardo não acreditava. Existia um Deus. Ele, que nunca acreditou nisso, falava com o cara agora! E, mais absurdo ainda, esse Deus zoou com ele a VIDA TODA! Não era possível, por que ele? Por que não seu irmão, ou seus inimigos. Por que não seu vizinho? Por que ele?

- Por que eu??

- Hã? Ah, sim, sabia que você perguntaria. Bom, sei lá. No dia que eu resolvi que ia fazer uma piada gigante assim, há 23 anos atrás, nasciam algumas pessoas pelo mundo. Dei uma olhada geral, e acompanhei seu nascimento de perto, assim como os outros que aconteciam ao mesmo tempo. E percebi que você era o cara. Sei lá, você já era estranho de nascença, e juro que eu não tenho nada com isso, foram os genes do seus pais que determinaram isso. Mas resolvi que seria com você. Simples assim.

Ricardo se conformou. Como Deus havia dito, ele se acostumara com essas coisas. E, agora que ele sabia a verdade, as coisas se tornavam muito mais claras. Era mais fácil aceitar tudo assim.

- E agora? O que vai ser de mim? Eu tô morto? Acabou a piada?

Deus deu uma risadinha, mas disfarçou logo.

- Então… Aí que entra a graça. Na verdade, eu menti pra você lá no começo da conversa. Disse que resolvi te tirar do jogo, mas era mais uma piada. Te contei toda a verdade, e agora sabe o que vai acontecer? Vou te botar lá de volta, e você vai continuar vivendo sua vida, com todos esses problemas que eu criei pra você, mas sabendo que tudo isso é uma grande piada. Vamos ver como você se sai!

E zaz! Num passe de mágica, tudo ficou preto de novo, silencioso, Ricardo perdeu a consciência. Um tempo depois, acordou, em sua cama macia. Lembrou-se do sonho esquisito que teve. Achou que sua vida faria mais sentido se ele fosse verdadeiro. Foi levantar-se, e, com o movimento, o estrado da cama se deslocou e caiu no chão, fazendo Ricardo bater o pé em um prego, machucando-o de uma forma inofensiva, mas extremamente dolorosa. Gritou de dor, rogou praga a todos os fabricantes de prego do mundo. De repente, parou. Olhou pra cima, pro céu. Abriu a boca espantado!

- Então era verdade, seu filho da puta!!

22 de Fevereiro de 2007

Genesis

Autor(a): CoN

Era uma vez, um cara estranho. Não posso definir exatamente como ele era fisicamente, mas posso afirmar que ele era parecido conosco, assim, meio humano. Mas, de humano, ele tinha pouco. Aliás, muito pouco.

Esse cara morava num lugar estranho. Sabe, não era o inferno, nem o céu, pois nada disso existia ainda. Era simplesmente o nada, mas também o tudo. Era Lá.

Só que Lá era um lugar sem graça pra caramba. Então, ele resolveu agitar um pouco as coisas. Era uma segunda-feira, mas ninguém sabia disso porque as segundas-feiras ainda não tinham sido inventadas. Mas tava um puta clima de segunda-feira, não tinha como ser outro dia. Então, o cara estranho a quem eu me referi até agora resolveu criar o tempo, e, que um raio parta-lhe a cabeça!, inventou as segundas-feiras.

Claro que não parou por aí, ele foi em frente, e o resto dos dias veio por conseqüência. As cagadas dele também não pararam por aí. Como ele percebeu que inventar as segundas-feiras havia sido um péssimo negócio porque isso trazia junto a ressaca do domingo, a volta ao trabalho, e todos aqueles problemas que as segundas tem e que vocês sabem bem quais são, ele resolveu se entreter um bocadinho, dando uma de construtor. Ele percebeu que as coisas por Lá tavam muito iguais, porque Lá era tudo e não era nada, e resolveu criar o céu, e viu que céu sem terra não fazia o menor sentido. E adivinha o que ele criou então?

Mas isso foi outra tremenda cagada. O céu só servia pra encher de nuvem quando ele queria sol, ou ter um baita sol quando ele queria sombra, ou algo do tipo. E a terra então, nem se fala, uma sujerada só, pra tudo quanto é lado, aquela poeira, terra vermelha, uma esporquice.

Esse era o ponto dele perceber que o negócio dele definitivamente não era a construção civil. Mas, teimoso do jeito que era, lá foi ele tentar, mais uma vez consertar a cagada que tinha feito, e, conforme os dias foram passando, ele só piorou as coisas. Primeiro, inventou de enxer a terra de água, pra tentar dar uma limpada na poeirada, e putz, ele lotou dois terço do que ele tinha criado de água! O resto, que ficou descoberto, ele encheu de plantas.

Depois, ele ainda teve a ousadia de criar um monte de bichos feios, peludos, fedidos, que só sabiam correr atrás um dos outros, gritar, se bater ou outras coisas chatas e irritantes. Além disso, fez todos esses bichos de forma com que nenhum deles fosse inteligente, soubesse falar ou fazer algo que prestasse ao mundo.

Bom, os que assistiam à esse mar de besteiras (boatos rolam de que seus irmãos mais velhos estavam assistindo) pensaram que aquela era hora que ele iria parar, já fazia seis dias que ele tava nessa de tentar fazer o nada parecer alguma coisa. Realmente, passou pela cabeça dele, por algum momento, parar tudo por ali. Só que, sabem como é, ninguém deixa uma cagada pela metade, e toda a merda que ele tinha feito até então não era nada perto do que ele estava prestes a fazer.

Quando ele viu tudo aquilo pronto, ele pensou que devia por alguém pra tomar conta. Ah, que idéia estúpida. Pegou um pouco de barro, fez um boneco humanóide e, vualá! (sintam que eu domino o francês), com um sopro deu vida ao coitado.

Depois disso, amigos, o mundo nunca mais foi o mesmo.

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