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28 de Janeiro de 2007

O ataque das formigas

Autor(a): CoN

A cidade estava um caos. As formigas começaram seu ataque.

- Como assim? – era a pergunta que mais se ouvia, quando alguém contava o que estava acontecendo a um desligado qualquer que não ouvisse a gritaria e a balburdia que tomava as ruas.

Obviamente, a resposta que mais se ouvia à pergunta mais ouvida era “Oras, que parte de ‘As formigas começaram seu ataque à cidade’ você não entendeu?”. Depois de ouvir isso as pessoas simplesmente deixavam de tentar entender e simplesmente não entendiam. Passavam, então, a contar pros desligados que encontravam que as formigas tinham começado seu ataque, e a responder a resposta mais ouvida à pergunta mais ouvida que se fazia.

Mas o fato é que, de fato, as formigas estavam atacando. E atacando pra valer, sabe, aquele tipo de ataque que as pessoas comentam “Puxa vida, que ataque hein!” quando elas não estão ocupadas contando pras outras as novidades ou tentando entender o que lhe contaram.

Nas principais avenidas da cidade, grandes formigonas andavam chutando as pessoas, os carros e os patinetes que viam pela frente, rindo e cantarolando como se aquele fosse o dia mais feliz da sua vida. Nos grandes prédios, empresários donos a cidade discutiam a situação, políticos governantes da cidade discutiam a situação e as pessoas comuns contavam umas pras outras o que acontecia nas ruas e nos grandes prédios.

Enquanto tudo isso acontecia, um pequeno bebê fazia peraltices em sua casa, situada em uma das avenidas principais que as formigas atacavam. O pequeno ser estava completamente alheio ao fato de que as formigas atacavam sua cidade, que formigas de fato existiam e de que formigas gigantes não era uma coisa comum de se ver por aí. Na verdade, ele estava alheio a tudo que não tivesse relação com as peraltices que ele fazia.

E naquele momento, ele entrava na despensa de sua casa. Naquele mesmo momento, um grupinho muito metido de formigas, que incluía várias operárias puxa-saco e a formiga rainha, se dirigia gingando em direção à casa do bebê, pois acharam-na bonita demais e resolveram toma-la para ser a sede de seu novo formigueiro.

O bebê, na despensa, começou a escalar uma série de gavetas, o que acabou se revelando um desafio muito maior do que ele havia imaginado. De fato, se tornou o maior desafio por que ele, o pequeno bebê, já havia passado. Em cima da mesa, encontrou vários objetos que não tinha a menor idéia do que eram, inclusive um tubo metálico com uma tampa amarela e uma imagem caricatural de um inseto morrendo. Ele bateu o tubo várias vezes no tampo da mesa até que a tampa amarela saísse voando, revelando uma pequena válvula spray.

Enquanto o bebê escalava a mesa da despensa de sua casa, completamente alheio ao telefone que tocava (pois havia um telefone tocando, mas obviamente, ninguém atenderia, pois ninguém o ensinou a atender telefones, e sua babá havia ido embora meia hora antes do momento certo), as formigas que derrubavam a porta da frente e estavam invadindo a casa.

Ouviram, claramente, um barulho vindo da direção da lavanderia, algo como metal sendo batido contra madeira. “Estão preparando as armas: vai ter luta”, pensou a formiga rainha, sem estar completamente errada. Seguiu de peito aberto, invadindo a cozinha e atravessando-a, chegando a despensa. Neste momento, não viu quem a atacava, apenas ouviu um barulho de ar escapando (algo como um “Tsssssssssssssssssssssssssssss”), um grito agudo de susto, e uma lata voando em sua direção.

Dez minutos depois, uma mulher entrava em casa desesperada, procurando por seu pequeno filho. Sabia que as formigas, repentinamente, haviam se retirado da cidade 10 minutos atrás, mas temia que algo tivesse acontecido com seu pimpolho. Estranhou muito, mas muito mesmo, ao encontrá-lo dormindo sobre o tampo da mesa da despensa, ao lado de uma formiga gigante morta, e uma lata de inseticida completamente vazia com a válvula spray destruída.

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15 de Janeiro de 2007

Quando a casca se quebra

Autor(a): Bam

Quando crianças somos ingênuos, nos magoamos por gestos, palavras e ações pequenos. Tudo é muito difícil de se superar. Somos insetos sem seus exoesqueletos, sujeitos a qualquer mau humor do meio.

É como naquele dia em que você resolveu ir para a escola com a sua nova lancheira da barbie em forma de coração. Para você aquele bem material era a coisa mais linda que existia na face da terra. Claro, depois dos milhões de comerciais assistidos, nada poderia ser mais bonito.

Enfim, você vai para a escola exibir sua nova lancheira. No intervalo está se divertindo com seus amigos e, de repente, chega aquela menina… isso mesmo, aquela que você não sabe por que tenta tornar sua vida um inferno.

Ela simplesmente começa a chamar você de monga, de menina da barbie, de garota da lancheira ou qualquer coisa do gênero. E você ainda é uma criança, não sabe lidar com as palavras dos outros, não sabe que nem todo mundo vai gostar de suas coisas. E é nessa hora que você chora, grita, esperneia e soluça tanto que nem consegue conversar. Parece que nunca mais vai sofrer dessa forma na sua vida.

E são com essas pequenas mágoas que você começa a criar ao redor de si aquela casca. Aquela proteção para sobreviver na vida de adulto.

Com todas as decepções a sua casca fica cada vez mais espessa. Você chora menos, esperneia menos, imagina sofrer menos. Todo mundo diz que você está crescendo, que está virando uma mulherzinha, que é uma pessoa forte e que será uma bela adulta.

Mas você sabia que aquela criança ainda estava dentro de todo aquele armamento criado para suportar a vida, para ser uma adulta. Você temia o dia em que iria encontrar seu cego a mascar chicletes, que sua casca não seria tão espessa e o ovo iria se quebrar.

E foi naquele dia…um dia que parecia comum, como qualquer outro do ano… O sol não aparecia, no entanto as nuvens não o cobriam por inteiro. Não chovia, gotejava. O arco-íris se mostrava ainda incerto, como se não soubesse se era o momento certo para colorir o céu.

Saiu do trabalho, cansada de agüentar seu chefe tagarelando e reclamando de tudo que fazia. Ele era esse tipo de pessoa… nada nunca estava bom, ainda era obrigada a ouvir ele dizer a mesma coisa umas cinco vezes.

Quando chega em casa ainda precisa arranjar uma maneira de consolar sua companheira de apartamento, pois seu pai acabara de morrer. A televisão apenas mostrava as tragédias do mundo e sentia-se uma fracassada por não ter ido atrás de todos seus ideais adolescentes.

Não que estivesse em seus 45 anos e tivesse descoberto toda a fragilidade e superficialidade de sua vida. Mas, aqueles fatos foram necessários para lhe causar arrepios e fazer sua casca se quebrar.

Então chorou, esperneou e soluçou como quando era frágil…sentiu toda a ingenuidade dominar seu corpo. Era aquela criança de 15 anos atrás que tomara seu corpo. Era toda aquela impotência diante do que faria de sua vida.

Por um momento também não pensou em nada, apenas sentiu aquela dor inocente. E dormiu como nos velhor tempos, com o rosto enfiado no travesseiro e a vida passando ao redor de si.

No dia seguinte a casca voltou, de maneira inexplicável. E apesar da frivolidade do exoesqueleto, ainda era algo útil para continuar a caminhar. Se quisesse, de alguma forma, mudar a travessia para algo mais parecido com suas idéias de criança, com a proteção conseguiria mais facilmente.

E é assim, com quebradas da casca, voltas ao passado, problemas e soluções que crescemos, que aprendemos para tentar mudar nosso rumo, para voltar aos ideais que foram deixados nas cinzas. Ou então para continuarmos na pacata viela, como o simples caracol de Lorca, ao invés de irmos atrás das estrelas.

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16 de Dezembro de 2006

Perigo Noturno

Autor(a): CoN

Eram duas da madrugada e Aderbal acordou assustado, com a impressão de que alguém havia o cutucado. Abriu os olhos, virou-se de lado e viu que sua irmãzinha estava em pé ao lado da cama, o cutucando.

Resmungou perguntando o que ela queria, mas sem deixar claro que era isso o que ele estava perguntando, o que fez a garota achar que ele estava apenas bocejando. Ela olhou pra ele assim mesmo, e disse algo. Aderbal já estava adormecido de novo.

Ela o cutucou novamente, e ele acordou da mesma forma patética novamente, e novamente grunhiu algo incompreensível. Antes que ele dormisse de novo, ela disse de novo o que ela havia dito anteriormente, e dessa vez ele a ouviu.

Levantou-se da cama, mas não sem antes amaldiçoar a terra, o céu, as irmãzinhas pequenas e as lâmpadas que teimam em queimar nos momentos em que elas não deveriam queimar.

No quarto de sua irmã, o abajur azul exibia no globo de vidro branco, de forma patética, o rosto de um palhacinho sorridente. Aquele palhacinho havia sido seu um dia e por mais que as pessoas grandes achassem que aquele era o tipo de abajur que deveria decorar o quarto de uma criança, ele nunca lidou bem com o fato de haver um palhaço assistindo-lhe dormir por toda a noite. É claro que, agora crescido, devidamente amadurecido, sendo um rapaz esclarecido, aquele abajur não significava mais nada para ele.

Contudo, o abajur estava apagado, já que uma daquelas lâmpadas teimosas que insistem em queimar em momentos inoportunos havia queimado naquele momento, que era bem inoportuno; esse havia sido, inclusive, o motivo pelo qual sua irmãzinha acordara no meio da noite e havia ido cutucá-lo as duas da manhã.

Pacientemente, Aderbal removeu o globo de vidro com a cara patética do palhacinho, removeu a lâmpada queimada, colocou a lâmpada nova que havia ido buscar na garagem (“Malditas escadas! Malditas garagens distantes dos quartos! Malditas lâmpadas que se alojam nas garagens!”), recolocou o globo em seu devido lugar e acendeu o abajur.

Lá estava novamente o palhacinho, pateticamente sorrindo para ele, aquele sorriso bobo e feliz. Chegou a achar graça de, um dia, ter tido medo daquele simples abajur e só não começou a rir porque estava com muito sono pra isso. Cobriu sua irmãzinha e foi se deitar.

Deitou-se novamente em sua cama, pronto pra recuperar o sonho que estava tendo antes de ser acordado na primeira vez por sua irmãzinha (sonho que envolvia uma praia, uma famosa apresentadora de canais jovens e ele próprio, no papel de namorado da famosa apresentadora). Contudo, uma cabeça redonda branca de palhaço insistia em tomar de assalto todas as suas tentativas de relembrar seu sonho, contar carneirinhos ou simplesmente não pensar em nada.

Virou-se na cama, de um lado pro outro, como se não conseguisse dormir de forma nenhuma, que era exatamente o que estava acontecendo. A cada cochilada, uma trupe de palhaços de circo, todos com as cabeças brancas, o atacavam com chinelos de praia e sua namorada fugia desesperada em busca de um lugar menos circense para ficar mais a vontade, e ele acordava novamente.

Sua irmãzinha acordou (de forma muito menos patética, o que não era difícil) com Aderbal cutucando-a.

- Vim dormir aqui com você, porque eu sei que você deve estar assustada com a lâmpada que queimou.

Ela não estava assustada.

- Mas eu não tô assustada!

- Tá sim, não precisa fingir… Posso dormir com você ou não?

- Pode ué – fez uma pausa curta, suficiente pra perceber que o quarto estava escuro – Ei! Por que tem uma toalha em cima do meu abajur?!

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11 de Dezembro de 2006

Infância

Autor(a): CoN

- Paiê, tá chegando?

- Ta Léo, falta só mais um pouquinho.

- Mas você já me falou isso várias vezes!

- Mas é que ta chegando mesmo, você que pergunta muitas vezes.

Léo se sentou de novo no fundo do banco. Seu leãozinho, Arnold, dormia em seu colo. Léo olhou pra ele, e cutucou seu nariz. O pequeno felino deu uma resmungada. Léo cutucou seu nariz de novo. O leãozinho espirrou e acordou. Olhou para seu dono, que ostentava aquela cara marota de “eu não fiz nada”, e voltou a dormir.

Léo viu que nem Arnold tava com vontade de brincar. Ele podia jogar gameboy agora, mas tinha esquecido as pilhas em cima da cama, antes de sair de casa. Já estava cheio de contar os carros que passavam na estrada, ou de fazer careta pros motoristas.

- Pai, a gente não vai chegar!?!

- Léo, eu já falei que estamos chegando! Olha bem ali, lá no fundo, ta vendo? Daqui eu to vendo a ponta do prédio da vovó, você não?! Acho que ela tá dando tchauzinho pra gente!

Léo olhou, apertando os olhos, mas não conseguiu ver o prédio. Aliás, nem cidade nenhuma ele via. No máximo, umas poucas casas espalhadas, avisando que o meio urbano se aproximava. Mas, se seu pai tava dizendo, então era verdade, estavam finalmente chegando.

O relógio do carro mostrava dois números, dois pontinhos e mais dois números. Os dois primeiros números, Léo conhecia, mas as aulas da escola tinham fugido de sua cabeça. O primeiro, um palitinho, era o primeiro da turma… Seu nome… Ah… Isso, era um! O segundo era apenas uma bola, chamava zero, mas Léo não entendia exatamente o que ele significava. Aliás, Léo também não entendia se o relógio marcava uma hora ou zero hora, já que os dois números estavam no mostrador! Ah, que cofusão!

- Pai, que horas são?

- São 10 e meia filho…

Ah! Então era isso! Dez e meia! Mas que diabos eram dez e meia?! Bom, isso já era muito complexo pra Léo, e resolveu parar de pensar nas horas.

- Ta chegando pai?

- Táá Léo… Escuta, pergunta pro Arnold se ele ta vendo a vovó lá longe! Acho que ela está esperando a gente com aquelas bolachinhas gostosas.

- Mas pai, o Arnold ta dormindo, e não quer acordar de jeito nenhum…

Léo não acordaria o Arnold pra perguntar qualquer coisa sobre a vovó. Sabia que o leãozinho não gostava da vovó, porque ela nunca lembrava o nome dele, e falava dele sempre como “o gatinho de pelúcia do Léozinho”. Léo já explicou pra sua vó muitas vezes que Arnold era um leão bravo e briguento, mas ela insistia em chamá-lo assim.

Léo olhou o relógio de novo. O último número do mostrador, que antes era um zero também, agora era aquele difícil de desenhar, com uma voltinha embaixo. Ah, o dois. Isso significava que passou dois… segundos ou minutos? Isso sempre confundia Léo, mas uma coisa era certa, não passou muito tempo. Que horas seriam agora? Dez e meia-dois?

- Pai, que horas são?

- Dez e meia filho!

- Mas era dez e meia na outra hora que você falou!

- Sim, agora são dez e trinta e dois, mas é que o papai arredondou.

Hum… É, o zero é mais redondo que o dois mesmo, mas o quê que isso tinha a ver?

Léo encostou a cabeça no banco, e começou a pensar nos números. Coisa de doido, não entendia porque ele tinha que aprender aquilo. Pior eram as letras, mas essas ele não sabia nem os nomes ainda… E aquela viagem então, tava dando um sono… As letras eram estranhas, algumas parecem números, que dançam… Não, as pessoas que dançam, e o carro balança… Aliás, é bom fechar o olho assim, com o balanço… Quantos números! Droga, as aulas acabaram e ele ficava pensando em números… Letras… Números… ZZzzzZzZzzz…

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