Insanidade
Autor(a): CoN
Sempre fui um cara decidido. Era sempre eu que decidia onde ir, quando os amigos estavam em dúvida sobre o que fazer a noite; nunca tive dúvidas quanto a que carreira seguir quando chegou a hora de decidir; sempre tomava decisões (as vezes não as melhores, concordo) e assumia aquilo até o fim (não por teimosia, simplesmente porque nunca me pareceu necessário agir de outra forma). Sempre fui um cara decidido. Exceto aquela noite.
Estávamos em quatro ou cinco, não me lembro, no carro. Rolava um som alto, cigarros, bebidas. Viajávamos, se não me engano, em direção ao Guarujá, ou outra praia qualquer do litoral sul de São Paulo. Perceba que os detalhes me escapam, infelizmente, mas é que aquela é uma noite que eu gostaria de esquecer por completo.
O fato é que viajávamos mas estávamos cansado, resolvemos parar em algum lugar no caminho pra descansar. Saí da pista principal por um acesso que havia, mas, devido à bebida, ou à mais pura falta de sorte, cai na única pista que eu não deveria ter caído. Era a entrada de uma fazenda, ou assim pareceu: tinha uma cerca, e o asfalto acabava ali. A pequena estrada seguia reto por um tempo, depois fazia uma curva pra esquerda. Tudo era escuridão.
Decidimos por entrar ali mesmo, parar o carro e dormir. Danem-se os perigos, estávamos bêbados e loucos, nem lembramos que existiria perigos. Carro parado, vimos uma luz se acender lá na frente. Pequena e fraca, foi chegando mais perto, uma lanterna. Obviamente, uma pessoa segurava a lanterna, e caminhava em nossa direção. Silenciamos, observando, mais espantados que amedrontados, infelizmente. O medo talvez tivesse nos impedido da besteira.
Foi muito rápido. Um riu e disse “acelera, atropela esse filho da puta” e logo essa era a idéia geral. Foi o que eu fiz. Acelerei em direção a ele. O coitado teve tempo de se sentir surpreso, imagino eu, antes de levar uma baita pancada e cair.
Morto.
A palavra dita pelo meu colega penetrou nos meus tímpanos de forma tão lenta e devastadora que quase eu morri, de fato. Era óbvio, claro demais, que o pobre coitado morreria. Mas a bebida, a desgraçada, faz coisas malucas. É bom poder colocar a culpa nela. O fato é que ali estava ele, morto, e a gente, sem saber o que fazer. Os outros pensaram rápido e se decidiram pela primeira vez. Abandonar, deixar pra trás, esquecer. Me olharam. Eu ainda estupefato. Não sabia, não queria, não podia. A cena, só de lembrar, me dá arrepios. Foram minutos longos, terríveis, até que eu finalmente concordasse.
Fugimos. Não sei o que foi feito do pobre coitado. Sei que ele me acompanha até hoje. Me visita em sonhos, me aterroriza em pesadelos. Nunca pude esquecer tudo aquilo, como foi combinado que faríamos. Mas saiba, aquela foi minha única oportunidade de estar indeciso. Sempre fui um cara decidido.
