13 de Outubro de 2007
Autor(a): Bam
Imparcial: que julga sem paixão
Não viemos à Terra para julgar, mas caso isso ocorrese, não devíamos fazê-lo sem paixão, sentimento tão intrínseco à essência humana. Então até qual ponto conseguimos ser imparcial? Até qual ponto conseguimos não nos afetar pelo sentimento alheio?
O que fazer em uma situação que requer imparcialidade, um sentimento - não, não pode ser chamado de sentimento ou qualquer coisa que envolva emoções - de máquinas incapazes da paixão. Como falar da minha imparcialidade?
Não, eu não tenho essa tal de imparcialidade. Eu só tenho uma mistura de emoções, como se fossem cores primárias que viram secundárias e no final parecem culminar sempre no cinza.
Como não tomar as dores de Castro Alves no navio negreiro, como não pensar com o nosso sistema límbico? É por isso que a minha suposta imparcialidade vai até onde minhas emoções permitem.
28 de Fevereiro de 2007
Autor(a): Bam
Por que gostamos das pessoas?! É, aquele gostar mesmo. Não como um simples amigo, como um possível amante.
Para mim essa sempre foi uma das maiores dúvidas da humanidade! Gostamos por causa da coerção econônima?! (Ah…eu adoro falar essa expressão, me sinto tão inteligente). Por causa dos padrões da sociedade?! Por causa do grupo de amigos?! Por fatores biológicos que impõem que gostemos das pessoas mais simétricas?! Por feromônios exalados?! Por conexões de vidas passadas?!
Cada vez eu formulo uma novo hipótese. E esses dias pensei… como Einstein descobriu tanta coisa?! Pirando na batatinha, claro. E eu, como boa discípula, resolvi seguir seu exemplo!
Decidi imaginar que todos nós somos esquizofrênicos e tempos múltiplas personalidades inconscientemente.
“E aí, o que acontece?! “
Entramos em conflito, claro, porque existem milhões de novos palpiteirinhos fora e dentro de nós.
“Unhh, e o que será? Como eles decidem se gostamos das pessoas?”
Pois é… aí que a coisa fica preta! Precisamos esperar uma concordância de milhões de eus internos… e tem mais um problema!!!! Eles podem concordar que gostamos de uma das nossas criações esquizofrênicas… Então temos que esperar a superação do baque de apaixonarmo-nos por algo que não existe…
Talvez pirar na batatinha só tenha resolvido para o Einstein e não para meros mortais…
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15 de Janeiro de 2007
Autor(a): Bam
Quando crianças somos ingênuos, nos magoamos por gestos, palavras e ações pequenos. Tudo é muito difícil de se superar. Somos insetos sem seus exoesqueletos, sujeitos a qualquer mau humor do meio.
É como naquele dia em que você resolveu ir para a escola com a sua nova lancheira da barbie em forma de coração. Para você aquele bem material era a coisa mais linda que existia na face da terra. Claro, depois dos milhões de comerciais assistidos, nada poderia ser mais bonito.
Enfim, você vai para a escola exibir sua nova lancheira. No intervalo está se divertindo com seus amigos e, de repente, chega aquela menina… isso mesmo, aquela que você não sabe por que tenta tornar sua vida um inferno.
Ela simplesmente começa a chamar você de monga, de menina da barbie, de garota da lancheira ou qualquer coisa do gênero. E você ainda é uma criança, não sabe lidar com as palavras dos outros, não sabe que nem todo mundo vai gostar de suas coisas. E é nessa hora que você chora, grita, esperneia e soluça tanto que nem consegue conversar. Parece que nunca mais vai sofrer dessa forma na sua vida.
E são com essas pequenas mágoas que você começa a criar ao redor de si aquela casca. Aquela proteção para sobreviver na vida de adulto.
Com todas as decepções a sua casca fica cada vez mais espessa. Você chora menos, esperneia menos, imagina sofrer menos. Todo mundo diz que você está crescendo, que está virando uma mulherzinha, que é uma pessoa forte e que será uma bela adulta.
Mas você sabia que aquela criança ainda estava dentro de todo aquele armamento criado para suportar a vida, para ser uma adulta. Você temia o dia em que iria encontrar seu cego a mascar chicletes, que sua casca não seria tão espessa e o ovo iria se quebrar.
E foi naquele dia…um dia que parecia comum, como qualquer outro do ano… O sol não aparecia, no entanto as nuvens não o cobriam por inteiro. Não chovia, gotejava. O arco-íris se mostrava ainda incerto, como se não soubesse se era o momento certo para colorir o céu.
Saiu do trabalho, cansada de agüentar seu chefe tagarelando e reclamando de tudo que fazia. Ele era esse tipo de pessoa… nada nunca estava bom, ainda era obrigada a ouvir ele dizer a mesma coisa umas cinco vezes.
Quando chega em casa ainda precisa arranjar uma maneira de consolar sua companheira de apartamento, pois seu pai acabara de morrer. A televisão apenas mostrava as tragédias do mundo e sentia-se uma fracassada por não ter ido atrás de todos seus ideais adolescentes.
Não que estivesse em seus 45 anos e tivesse descoberto toda a fragilidade e superficialidade de sua vida. Mas, aqueles fatos foram necessários para lhe causar arrepios e fazer sua casca se quebrar.
Então chorou, esperneou e soluçou como quando era frágil…sentiu toda a ingenuidade dominar seu corpo. Era aquela criança de 15 anos atrás que tomara seu corpo. Era toda aquela impotência diante do que faria de sua vida.
Por um momento também não pensou em nada, apenas sentiu aquela dor inocente. E dormiu como nos velhor tempos, com o rosto enfiado no travesseiro e a vida passando ao redor de si.
No dia seguinte a casca voltou, de maneira inexplicável. E apesar da frivolidade do exoesqueleto, ainda era algo útil para continuar a caminhar. Se quisesse, de alguma forma, mudar a travessia para algo mais parecido com suas idéias de criança, com a proteção conseguiria mais facilmente.
E é assim, com quebradas da casca, voltas ao passado, problemas e soluções que crescemos, que aprendemos para tentar mudar nosso rumo, para voltar aos ideais que foram deixados nas cinzas. Ou então para continuarmos na pacata viela, como o simples caracol de Lorca, ao invés de irmos atrás das estrelas.
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30 de Dezembro de 2006
Autor(a): Bam
Pois bem, caros leitores, cheguei ao céu. Aqui não é exatamente o céu, na vida carnal temos uma concepção distorcida da realidade após a morte. Tudo é diferente do que sempre imagináramos: não existe o maniqueísmo, não existe julgados ou julgadores; simplesmente compomos um infinito diálogo sobre a complexa experiência de viver. De psicanalista e filósofo louco, todos os mortos têm um pouco.
Foi numa dessas minhas conversas pelo paraíso que conheci um sujeito, mas não vou descrevê-lo para não me demorar na narrativa. Ele, não obstante sua aparência peluda, manteve um diálogo comigo. Seu nome é Brás Cubas e escreveu recentemente um livro sobre sua vida. Curioso como sou, pedi para me ensinar a técnica de escrever neste outro plano; e assim, graças a esse homem, cá estou eu lhes dizendo minha história.
Sinto ainda não ter me apresentado para vossas senhorias, meu nomé é João Alvarenga Silva, mais conhecido como Lobo Mau. Sei que que é um apelido de muito mau gosto, e talvez não represente minha infindável existência, mas lhes devo garantir que foi de uma grande valia para mim.
Entendo o questionamento de vocês, leitores. Nosso raciocínio, lógico e simples, não consegue distingüir a magnificência de como pode ser útil possuir algumas coisas que aparentemente soem ruins. Portanto, imaginem se me chamasse Lobo Bom, minha desgraça estaria feita! Quem é bom não pode errar, não pode menitr, não pode ter um momento de irracionalidade. Sinto pena desses indivíduos, já que tenho, como ovelha negra, a liberdade de ser como quiser, sem decepcionar alguma esperança colocada em mim.
Agora, preciso lhes contar a parte da minha história que geralmente é narrada por uma percepção parcial. É o caso dos três porcos capitalistas. Todos imaginavam que estava simplesmente com fome, e como um consumidor de porcos na cadeia alimentar, resolvi caçá-los. No entanto minha razão foi outra: estavam pilheriando minha amiga cigarra. Essa mesma, do incidente com as formigas.
Esses suínos estavam lhe afirmando a sua não ida para o céu! De acordo com a ética calvinista deles, apenas os que possuíam uma vida de trabalho eram predestinados aos campos santos. Minha amiga era religiosa, uma religião espiritualista e um pouco diferente do comum, mas ainda assim ficou chateada com tais comentários. Eu resolvi, então, atuar: iria me vingar. Na época não conhecia o trinitrotolueno ou o agente laranja, usei, pois, a velha tática do sopro.
Todos sabem o final do ocorrido: não tive êxito com o sopro. Mas lhes digo que consegui me vingar, e a história irá comprovar. Sabem aquela casa? A construída pelos porcos? Foi o início da propriedade privada e dos condomínios fechados. Logo, vossas senhorias entendem que eles desgraçaram sua existência e a de seus descendentes.
E aqui termina minha breve história. Ela não é uma fábula, não há uma moral, não quero mudar suas vidas. Entretanto, para aqueles que quisseram sobre uma vida fúnebre e triste no inferno para mim, digo-lhes uma coisa: se enganaram. Me dei muito bem aqui, a cigarra já aprendeu a tocar harpa e piano. Nos divertimos muito nos bailes celestiais.
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