11 de Janeiro de 2007

Aniversário

Autor(a): CoN

- Gravando!

Cena escura. Percebe-se alguma movimentação. Um tropeção.

- Ai!

Uma luz, no meio da sala, começa a se acender, de cima pra baixo. Um vulto, que logo se torna visível, ergue a cabeça. É um homem, mas se parece com um o mínimo que é possível para um. Por mais confuso que isso possa parecer. Usa uma franjinha na testa, cabelo escorrido, uma maquiagem escura. Um tom choroso se percebe em seu olhar. Começa a falar.

- É difícil pra mim estar aqui, falando sobre isso. Mas, é preciso, pelo bem de muita gente que pode vir a passar por isso. E porque preciso desabafar. Sabe, muita gente pensa que é bom crescer, que é bom ser mais velho, que a vida de pessoa independente é boa. Eu posso dizer: não é. Na verdade, a vida nunca é boa. Ela é triste, deprimente, detestável. Mas, quanto mais velhos ficamos, mais conscientes disso ficamos. Nossos miguxos… – ouve-se algumas risadinhas no local, embora não seja possível ver mais ninguém; o próprio vulto, no meio da cena, solta um leve sorriso. Depois, retorna ao tom jocoso original - Nossos miguxos, eles se distanciam, nossa família, mamis, papi, todos ficam pra trás. A gente precisa trabalhar, a gente precisa fazer uma faculdade, a gente precisa virar gente. Já não podemos se reunir no shopping para mostrar pro mundo como a gente é revoltado. Já não podemos usar nossas roupas linduxas no trabalho ou na escola sem perder o emprego ou o respeito dos amigos. Nem chorar, NEM CHORAR, nós podemos, sem esse olho crítico do mundo que nos rodeia! Ah! Fazer aniversário é ruim demais! Vou me matar! Alguém me empreste duas pilhas, quero levar choque até morrer! – uma mão aparece, estendendo duas pilhas e dois pedaços de fio – Obrigado, miguxo! Adeus mundo!

Silêncio.

- Droga, não dá pra me matar assim! To tixte…

Silêncio. A luz central se apaga lentamente.

-Corta!

Risadas ecoam pelas paredes, a luz acende, e revela a presença de mais três pessoas no recinto, além de uma câmera e um computador. Todos, exceto a câmera e o computador, riem gostosamente.

- Ah, isso aqui vai ser um sucesso na internet! Vamos por no ar já!!

Um dos garotos se adianta e começa a digitar, clicar e fazer tudo aqui que se faz em um computador. De repente, o espanto, seguido do xingamento.

- Fudeu!

- O que foi?

- A merda do YouTube no Brasil foi bloqueada!

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