30 de Dezembro de 2006

Sem fábula, sem moral

Autor(a): Bam

Pois bem, caros leitores, cheguei ao céu. Aqui não é exatamente o céu, na vida carnal temos uma concepção distorcida da realidade após a morte. Tudo é diferente do que sempre imagináramos: não existe o maniqueísmo, não existe julgados ou julgadores; simplesmente compomos um infinito diálogo sobre a complexa experiência de viver. De psicanalista e filósofo louco, todos os mortos têm um pouco.

Foi numa dessas minhas conversas pelo paraíso que conheci um sujeito, mas não vou descrevê-lo para não me demorar na narrativa. Ele, não obstante sua aparência peluda, manteve um diálogo comigo. Seu nome é Brás Cubas e escreveu recentemente um livro sobre sua vida. Curioso como sou, pedi para me ensinar a técnica de escrever neste outro plano; e assim, graças a esse homem, cá estou eu lhes dizendo minha história.

Sinto ainda não ter me apresentado para vossas senhorias, meu nomé é João Alvarenga Silva, mais conhecido como Lobo Mau. Sei que que é um apelido de muito mau gosto, e talvez não represente minha infindável existência, mas lhes devo garantir que foi de uma grande valia para mim.

Entendo o questionamento de vocês, leitores. Nosso raciocínio, lógico e simples, não consegue distingüir a magnificência de como pode ser útil possuir algumas coisas que aparentemente soem ruins. Portanto, imaginem se me chamasse Lobo Bom, minha desgraça estaria feita! Quem é bom não pode errar, não pode menitr, não pode ter um momento de irracionalidade. Sinto pena desses indivíduos, já que tenho, como ovelha negra, a liberdade de ser como quiser, sem decepcionar alguma esperança colocada em mim.

Agora, preciso lhes contar a parte da minha história que geralmente é narrada por uma percepção parcial. É o caso dos três porcos capitalistas. Todos imaginavam que estava simplesmente com fome, e como um consumidor de porcos na cadeia alimentar, resolvi caçá-los. No entanto minha razão foi outra: estavam pilheriando minha amiga cigarra. Essa mesma, do incidente com as formigas.

Esses suínos estavam lhe afirmando a sua não ida para o céu! De acordo com a ética calvinista deles, apenas os que possuíam uma vida de trabalho eram predestinados aos campos santos. Minha amiga era religiosa, uma religião espiritualista e um pouco diferente do comum, mas ainda assim ficou chateada com tais comentários. Eu resolvi, então, atuar: iria me vingar. Na época não conhecia o trinitrotolueno ou o agente laranja, usei, pois, a velha tática do sopro.

Todos sabem o final do ocorrido: não tive êxito com o sopro. Mas lhes digo que consegui me vingar, e a história irá comprovar. Sabem aquela casa? A construída pelos porcos? Foi o início da propriedade privada e dos condomínios fechados. Logo, vossas senhorias entendem que eles desgraçaram sua existência e a de seus descendentes.

E aqui termina minha breve história. Ela não é uma fábula, não há uma moral, não quero mudar suas vidas. Entretanto, para aqueles que quisseram sobre uma vida fúnebre e triste no inferno para mim, digo-lhes uma coisa: se enganaram. Me dei muito bem aqui, a cigarra já aprendeu a tocar harpa e piano. Nos divertimos muito nos bailes celestiais.

Comentários deste post no Haloscan

WordPress database error: [Can't open file: 'wp_comments.MYI' (errno: 145)]
SELECT * FROM wp_comments WHERE comment_post_ID = '25' AND comment_approved = '1' ORDER BY comment_date

Nenhum comentário


Comente »



Histórias pra Boi Dormir - desde 2006 - Layout por CoN