4 de Abril de 2007

Afrotrip - parte III

Autor(a): Diego

- OK, então eu passo a filmadora no cartão do meu pai? - Perguntou Diego pouco antes de se sentar.

-É. E se você comprar o seu walkman (iPod…) você passa no meu - disse sua mãe.

- E que horas são? Quero pegar a fila faltando uma hora pro avião sair.

- São cinco e quinze- disse seu pai – daqui quinze minutos você vai…

Diego já não parecia mais ouvir. Estava mergulhado em pensamentos sobre seu iPod ou sua câmera, nem sequer se lembrando que estes eram os últimos quinze minutos que passaria ao lado de seus pais nos próximos dois meses. Bela câmera.

Passados os quinze minutos, Diego levantou-se e foi em direção à fila, onde haviam cerca de vinte pessoas.

- Dá pra esperar? – perguntou sua mãe – daqui a gente não pode passar.

Só então Diego notou. Estava adentrando um saguão por onde apenas podiam entrar aqueles que portavam sua passagem. Sem grandes cerimônias, despediu-se de seus pais e foi logo pegar a fila. “Será que eu pego o iPod preto ou o branco?” pensava ele.

Voltou a si cerca de dez minutos depois, percebendo que a fila não andava. Ao seu lado, um boliviano reclamava:

- Caramba, que se passa? Estoy temprano! (ou algo assim)

Diego não sabia se tinha entendido, mas o sentimento era compartilhado por todos. Ao vasculhar o saguão com cuidado, percebeu que no fim da fila haviam quatro orientais, trajando terno, discutindo acaloradamente com o gentil senhor que fazia a vistoria das passagens.

Pouco mais de dez minutos depois, a fila tornou a se mover, e logo chegou sua vez. Tratou de tirar logo todo material metálico que tinha em mãos. Ao passar pelo detector, o alarme soou. Seu coração disparou. “o que eu esqueci?”, pensava ele.

- Senhor, você está de cinto? - perguntou o segurança, de maneira surpreendentemente simpática.

- Porra, verdade! - exclamou sem querer.

Finalmente, agora era só achar sua câmera e seu iPod.

Entrou na lojinha, e foi logo para a sessão de eletrônicos. Quase que como mágica, um vendedor brotou do chão,

- Posso ajudar?

- Pode sim. Eu estou procurando uma filmadora digital.

- Nós temos apenas estes quatro modelos.

- Quero o mais barato.

- Pois não. Algo mais?

- Um iPod nano.

- Tamanho?

- Dois giga.

- Só tem preto.

- Tá, era isso mesmo que eu queria.

Pagou. Nunca em sua vida ele tinha se sentido tão roubado.

Foi então que ele caiu em si. “Tá, e agora eu vou pra onde?”

Olhou em volta. Achou o numero de sua plataforma. Seguiu as placas. Olhava o relógio toda hora. Apesar de ainda faltar meia hora para ele poder entrar no avião, sentia-se compelido a chegar logo à plataforma. Finalmente, depois do que pareceram duas horas (cerca de quatro minutos e vinte e sete segundos), ele chegou à área destinada aos passageiros da companhia South África Airlines. Ficou em pé perto da porta que levaria ao avião, para que pudesse se sentar logo. Então ouviu um barulho de celular tocando, procurando de onde vinha o som. Viu uma bela mulher, que trajava um vestido longo tirando o aparelho de sua bolsa.

- Alô?… Não, vou embarcar daqui a pouco… Ele tá com o Carlos… Uma glock nove milímetros na bolsa… Ele é o terceiro mais procurado pela Al Qaeda.

“Puta que pariu, só me falta agora cair o avião no meio do mar” pensou ele verdadeiramente assustado. Olhou para o banco, e todos subitamente ficaram muito parecidos com um homem procurado pela Al Qaeda sentado ao lado de Carlos.

- Atenção passageiros do vôo 637 com destino a Joanesburgo, o embarque está liberado.

“Bom, é isso ai” pensou ele enquanto entrava na aeronave. “Agora não tem mais volta. Porra, eu tenho que ir até o fundo do avião? Sacanagem hein…”

Pois é, a vida é assim.

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