2 de Novembro de 2007

Passarinho bebe disso?

Autor(a): Jaque (www)

Sempre me achei um pára-raio de doido…

Num dia quente dusinferno, estava eu no ponto de ônibus quando chegou uma dona que usava uma tiara com um rabo de cavalo, sandálias havaianas verdes, um jeans meio cansado, uma bolsa enorme e uma camiseta toda colorida.

- Aqui passa o Caprioli, moça?

- Passa, sim. Acabou de passar um. Mas daqui a pouco passa outro.

- Tá bom.

E sentou-se ao meu lado. Alguns minutos depois de silêncio árduo, seco e quente; ela chega mais perto, me encara e diz:

- Sabe o que é fia? É que eu tomei um golim de gabiroba…

Assim assim…do nada!!! Fiquei pasma!! E ela ainda tinha uma cara de desculpa por ter tomado ‘um golim’ de  gabiroba. Como se tivesse pedindo desculpas por ter arrotado.

Além de atrair doidos, atraio bêbados - uma espécie de caso disjunto dos insanos e que contém certa dose de insanidade. Uma amiga teve uma fase bizarra na faculdade e chegava a tomar uns porres épicos. E quem segurava a sua cabeça enquanto chamava o Raul abraçada ao trono era eu. Até já dei banho de mangueira lá na roça em uma renca de amigas pés-de-cana na época da faculdade nos pós-prova. Num coquetel de congresso socorri uma garota que cantava mal pacarái e cismou que queria cantar, resultado: zoneou o coquetel. Até levei uma conhecida para o hospital para tomar glicose. Ela olhou para a médica, sorriu e perguntou com voz arrastada:

-Ozê tem injezão pra palhazo, moza?

Putz! Alguns bêbados são realmente pródigos em frases absurdamente geniais. Dizer que o álcool desenrola a língua seria sacrilégio, mas os romanos sabiam bem do que estavam falando quando diziam: in vino veritas.

- Olha, tá vindo um Caprioli.

- Ihhhh, moça! Nem é esse “balofo” aí que eu quero. Né não, to te falando! É outro Caprioli

- Não mesmo? A senhora tem certeza?

- É que eu tomei gabiroba. Sabe como é, moça?

Ai…essa cara de desculpa é que me matava! Quando vi que o motorista do ônibus era gordinho, não levou muito tempo para eu perceber que a dona não estava esperando um ônibus. Ela estava esperando era o motorista. A dona tava é de namorico!! Vê se pode? Ou será que era o motorista da transportadora de gabiroba?

- Ô moço! Faz isso não, moço! Se ocê der mais um passo, ocê cai!

O rapazinho que empurrava o carrinho de pipocas olhou pra ela com uma cara de quem pensa “…diacho de dona mais doida…” e continuou empurrando o carrinho. Mas a dona insistiu:

- Mozoooo! Vozwe… vaaai garrrivw…

E ela olhou para mim:

- É que eu tomei gabiroba. Sabe como é, moça?

Ow sô!!! Ela não enrolava a língua pra falar gabiroba nem se eu desse mais um golim de gabiroba pra ela!!! Lamentei tanto não estar com a máquina digital pra fazer um vídeo e colocar no youtube e mostrar a cara de desculpas que a dona do golim de gabiroba fazia. Cerca de 11 em cada 10 palavras do nosso ‘diálogo’ era gabiroba. Fui pro hotel rindo sozinha, abri uma latinha de cerveja e fiquei pensando em como alguém pode se sentir tão mal por ter tomado gabiroba. Confesso que até deu vontade.

E ainda bem que vontade é algo que dá e passa.



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