25 de Agosto de 2007
Autor(a): CoN
A semana havia sido exaustiva para Artur. Abriu uma cerveja e sentou-se no sofá da sala, pronto pra ver televisão até cair de sono. Deu uns goles, mudou uns canais. Acabou caindo na novela. Alguns diziam que a religião é o ópio do povo. Hoje em dia a novela tava mais pra isso. Desistiu da novela.
Desligou a televisão, colocou uma musiquinha calma pra tocar, deitou. Estava cansado, cansado demais. Cansado dos afazeres do dia-a-dia. Cansado de seu emprego, que nada tinha a ver com tudo aquilo que ele sonhava quando jovem. Cansado daquela cidade grande, suja, estranha. Cansado da distância que o separava de quem ele gostaria de estar perto. Cansado de ter que viver aquela vida.
Um balão subiu no ar. Era branco, tinha uns desenhos azuis, uma coisa psicodélica maluca. Levava um jovem sorridente, um jovem que chamava Artur e se sentia feliz. Levava uma jovem com quem Artur queria estar o tempo todo junto, e a distância que os separava não existia mais. Voava pelo céu claro, sobre um mundo verde de árvores e azul de rios e oceanos. Desceu na clareira. Uma casinha, simples, ali na praia, turistas, sol, mar.
Viu seus pais, seus amigos. Tinham vindo fazer uma visita, olha só, até o cachorro veio. Correu atrás do peludo, brincando, gritando, feliz. Uma pedra, e ele tropeçou. Acordou de sobressalto. Olhou no relógio, hora de ir pra cama.
Amanhã era um sábado longo de trabalho, e o trabalho não o permitia se dar ao luxo de ficar sonhando. Foi dormir.
18 de Agosto de 2007
Autor(a): CoN
Sempre fui um cara decidido. Era sempre eu que decidia onde ir, quando os amigos estavam em dúvida sobre o que fazer a noite; nunca tive dúvidas quanto a que carreira seguir quando chegou a hora de decidir; sempre tomava decisões (as vezes não as melhores, concordo) e assumia aquilo até o fim (não por teimosia, simplesmente porque nunca me pareceu necessário agir de outra forma). Sempre fui um cara decidido. Exceto aquela noite.
Estávamos em quatro ou cinco, não me lembro, no carro. Rolava um som alto, cigarros, bebidas. Viajávamos, se não me engano, em direção ao Guarujá, ou outra praia qualquer do litoral sul de São Paulo. Perceba que os detalhes me escapam, infelizmente, mas é que aquela é uma noite que eu gostaria de esquecer por completo.
O fato é que viajávamos mas estávamos cansado, resolvemos parar em algum lugar no caminho pra descansar. Saí da pista principal por um acesso que havia, mas, devido à bebida, ou à mais pura falta de sorte, cai na única pista que eu não deveria ter caído. Era a entrada de uma fazenda, ou assim pareceu: tinha uma cerca, e o asfalto acabava ali. A pequena estrada seguia reto por um tempo, depois fazia uma curva pra esquerda. Tudo era escuridão.
Decidimos por entrar ali mesmo, parar o carro e dormir. Danem-se os perigos, estávamos bêbados e loucos, nem lembramos que existiria perigos. Carro parado, vimos uma luz se acender lá na frente. Pequena e fraca, foi chegando mais perto, uma lanterna. Obviamente, uma pessoa segurava a lanterna, e caminhava em nossa direção. Silenciamos, observando, mais espantados que amedrontados, infelizmente. O medo talvez tivesse nos impedido da besteira.
Foi muito rápido. Um riu e disse “acelera, atropela esse filho da puta” e logo essa era a idéia geral. Foi o que eu fiz. Acelerei em direção a ele. O coitado teve tempo de se sentir surpreso, imagino eu, antes de levar uma baita pancada e cair.
Morto.
A palavra dita pelo meu colega penetrou nos meus tímpanos de forma tão lenta e devastadora que quase eu morri, de fato. Era óbvio, claro demais, que o pobre coitado morreria. Mas a bebida, a desgraçada, faz coisas malucas. É bom poder colocar a culpa nela. O fato é que ali estava ele, morto, e a gente, sem saber o que fazer. Os outros pensaram rápido e se decidiram pela primeira vez. Abandonar, deixar pra trás, esquecer. Me olharam. Eu ainda estupefato. Não sabia, não queria, não podia. A cena, só de lembrar, me dá arrepios. Foram minutos longos, terríveis, até que eu finalmente concordasse.
Fugimos. Não sei o que foi feito do pobre coitado. Sei que ele me acompanha até hoje. Me visita em sonhos, me aterroriza em pesadelos. Nunca pude esquecer tudo aquilo, como foi combinado que faríamos. Mas saiba, aquela foi minha única oportunidade de estar indeciso. Sempre fui um cara decidido.
11 de Agosto de 2007
Autor(a): CoN
Os médicos de todo o Universo conhecido (e talvez até da parte desconhecida, mas como não se sabe se lá há médicos, fica decidido que não falaremos deles) a algum tempo vinham se dedicando ao estudo de um grave distúrbio que aflige hoje a grande parte da população viva da história conhecida.
Trata-se de um fenômeno de dupla personalidade esquisito. Dentro de certas circunstâncias, pessoas que sofrem desse mal (embora esse lance de chamar de “mal” também está sendo discutido, visto que algumas pessoas gostam de suas outras personalidades) repentinamente adquirem uma personalidade completamente diferente da sua personalidade normal. O que é mais intrigante é que a nova personalidade, invariavelmente, é falante, brincalhona, engraçada, adora suco de tamarindo e odeia qualquer coisa relacionada a álcool.
É interessante notar também que os doutores relacionaram a manifestação do distúrbio à pessoas que, em determinada fase de sua vida (que pode ser ela toda), beberam bastante bebidas alcoólicas. Ou seja, grande parte da população viva da história conhecida. Então, pelo bem da ciência, eles mesmos resolveram começar a beber muito para estudar os efeitos da coisa todo em seus próprios corpos. Infelizmente, hoje, sobraram poucos médicos sadios para continuar as pesquisas.
Eu, enquanto encarava o capitão da nave e ouvia o duelo de meu corpo com minha cabeça sobre quem era responsável por me tirar daquela situação complicada em que nenhum dos dois sabia como eu havia me metido, desconhecia completamente toda a baboseira da dupla personalidade.
Foi nesse momento em que ela apareceu. A minha segunda personalidade, que eu desconhecia, era muito mais falante que eu, muito mais brincalhona que eu, muito mais engraçada que eu, adorava suco de tamarindo e não suportava álcool. E eu desconhecia tudo isso, também.
Na hora, meu corpo e minha cabeça calaram a boca e ficaram vendo o que essa nova personalidade fazia. E ela fez algo muito, realmente muito impressionante. Ela deu um soco no capitão.
Capítulo I
Capítulo II
Se você, visitante, entrar aqui e der de cara um layout completamente diferente e defeituoso, não esquente. Sou eu testando umas coisas. Simplesmente esqueça o que você viu, e tudo ficará bem.
7 de Agosto de 2007
Autor(a): CoN
Antônio acordou às 8 horas aquele dia. Diferente dos dias normais, aquele dia ele estava bem disposto, animado até. Tinha caminhado toda a sua vida esperando por aquele dia, e aquele dia havia chegado. Levantou-se, tomou um banho relaxante, terminou de encher sua mochila. Deu uma última olhada em sua casa, seus aposentos. Sentiria falta dela. Mas ela já servira pra seu novo objetivo de vida, era tempo de tentar algo novo.
Tinha sido a decisão mais importante de sua vida. Já não agüentava mais a vida chata de ser uma pessoa normal, um trabalhador, como todos esperam que você seja. Já não entendia o porquê de tudo aquilo, o porquê da vida e do universo. Qual era o propósito do universo? Ele sentia que havia uma resposta, não podia ser só estar lá, sem um propósito. Resolveu se dedicar a descobrir a resposta.
Vendeu sua casa, demitiu-se de seu emprego. Despediu-se dos poucos amigos, não triste por ir embora, mas feliz pela libertação. E agora se encontrava ali, se despedindo da casa. Sabia que pra descobrir a verdade, o real propósito do universo, teria que viajar, experimentar. Era o que estava fazendo.
Ao olhar uma última vez para sua casa e a de seus vizinhos, já tendo atravessado a rua rumando para a saída da cidade, sentiu um aperto, pela primeira vez fraquejou. Pensou que poderia estar fazendo uma grande burrada, que estaria destruindo sua vida. Então pensou em como ele se sentia preso na vida que levava, como sonhava, frequentemente, com viagens e aventuras, como realmente queria fazer o que estava prestes a fazer. Virou, e seguiu em frente.
Sua vida estava prestes a começar.