26 de Abril de 2007

Afrotrip - parte IV

Autor(a): Diego

Diego estava passado. Sua “poltrona” era a última do avião. Última mesmo. Uma série de pensamentos pareciam gritar dentro de sua cabeça. “Como será lá na África?”, “Será que a cidade é grande?”, “Quais filmes eu vou poder assistir?”, e outros tantos.

Passados cerca de quinze minutos desde a entrada, o comandante disse algo inaudível, mas Diego teve certeza que era o aviso de decolagem. Não deu outra. Em menos de sete segundos o avião iniciou a manobra de decolagem. Foi então que um pensamento no mínimo perturbador o surpreendeu: Diego não conseguia se imaginar na África. Desde pequeno, quando tal sentimento o possuía, algo dava errado e ele não conseguia ir onde devia. “Não deve ser nada”, pensou ele “Em doze horas eu estarei lá”.

Mais calmo, começou a desbravar o aparato plugado à parte traseira da poltrona da frente, procurando algum filme para ver. Logo de cara, uma surpresa: havia alguns filmes que nem sequer haviam chegado aos cinemas brasileiros. Escolheu Wedding Crashers, pois os atores eram de seu agrado. A tela era muito boa, mas o ângulo de visão era muito restrito, de maneira que a pessoa ao lado jamais saberia o que você assistia.

Pouco mais de quinze minutos depois, surgiu o primeiro problema: o desconforto. O espaço reservado às pernas era realmente bem pequeno, de modo que ele se sentia espremido. Mas não deu atenção a isso, e continuou assistindo seu filme, recusando duas vezes a bebida oferecida pela aeromoça, cujo sotaque era carregadíssimo.

Na hora do jantar, escolheu frango, que acompanhava um macarrão com um molho incrivelmente gostoso e uma porção de legumes. Depois pegou um livro dentro de sua mochila (Bento, do autor André Vianco) e começou a ler. Ficou lendo por cerca de duas horas, até que percebeu que ninguém a sua volta estava acordado. Resolveu então dormir também. “Quem sabe assim a viagem não passa mais rapido” pensou ele, tentando movimentar as pernas, já formigantes. Mas não conseguiu. Não havia nele nem sequer um vestígio de sono, o que realmente o incomodou. Tornou a ligar o aparelho de tv e escolheu outro filme, que o entreteve por mais duas horas. Depois disso, contentou-se em olhas pela janela, apreciando um lindo amanhecer, com direito a sol vermelho e todas as coisas que se vê em filmes melosos.

Finalmente, depois de quase doze horas sentado, ouviu o comandante dizer:
-Good morning, this is your commander. We are now beginning the landing precedures - Depois disso, nada mais era compreensível.

Quinze minutos depois, o avião estava pousado. Diego não precisaria pegar sua mala, já que esta ia direto para Cape Town, o que lhe deixava uma hora e meia para desembarcar e ir até o local de embarque. Ao descer do avião, um forte calor foi sentido. “Os ares africanos são parecidos com os brasileiros…”

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17 de Abril de 2007

Aos primeiros raios de sol…

Autor(a): CoN

Eram 4h35 da manhã quando acordou. O sofá sob seu corpo fazia doer suas costas, e o uísque barato, que antes enchia as garrafas agora espalhadas pelo chão, fazia doer sua cabeça. O abajur estava também no chão, e iluminava o caos que se instalara no apartamento cerca de 9 horas atrás: as garrafas, cinzas de cigarros, uma camisinha e um revolver jaziam por perto. O revolver! Que risco deixá-lo ali, assim!

Levantou-se do sofá duro para desligar o despertador que o acordara. Recolheu o revolver, guardando-o no bolso da jaqueta. A lua brilhava lá fora, em meio à fumaça sempre presente ali no subúrbio. Vida dura, a daqueles que moravam ali. Mas agora ele não podia pensar nisso. Sua cabeça doía, mas ele a mantinha focada no motivo por que acordou àquela hora.

Seu celular vegetava sobre a mesa. Embolsou-o junto com a chave da moto, e saiu para a noite gélida. Deu partida e, enquanto percorria ruas e ruelas em direção ao seu destino, relembrava o plano.

Era simples. Chegar, matar, dar o sinal. O incêndio ficaria por conta dos outros, seus fiéis parceiros. E aquele desgraçado teria o que merece. Ah, só de lembrar, tinha espasmos de fúria! O bandido, traidor, que mudou de lado na última hora e lhe ameaçou tirar suas maiores preciosidades. Seu irmão, infelizmente, ele não pôde salvar. Mas, de forma alguma deixaria que lhe tomassem ela.

O destino se aproximava e ele já sentia a satisfação de fazer justiça com as próprias mãos. O vento na cara era excelente para curar-lhe a dor de cabeça e tirar os últimos resquícios de uma ressaca inexistente, nunca fora homem de ter ressaca. Seu celular vibrou. Ela!

- Falei para você não ligar, Janaína, só se mantenha escondida!

- Foge daí, por favor - a voz da moça transparecia aflição, quase desespero - vai dar polícia lá, eles tão sabendo, alguém te entregou!

O aviso foi um balde de água fria pra ele. Prometera, por inúmeros motivos que iam desde orgulho próprio à memória de seu falecido pai, que nunca se deixaria ser preso - e aquele plano acabara de se tornar um pedido ao xadres. Por outro lado, jamais deixaria escapar uma chances dessas, de vingar seu irmão e proteger sua garota. Rapidamente, como sempre fazia, chegou à uma solução.

- Lembre-se que você é a coisa mais importante para mim - foi tudo que disse pelo celular, antes de arremessá-lo num bueiro próximo.

Meia hora mais tarde, a polícia invadia o casebre onde uma denúncia, feita por uma jovem moça, dizia que ali ocorreria um assassinato. Era tarde. Dois corpos jaziam no chão, um com uma aparência assustada e um furo no peito; o outro, com um sorriso no rosto e um tiro na lateral da cabeça. Enquanto isso, a tortura do remorso fazia Janaína chorar copiosamente sobre a foto do único homem que a amou na vida, enquanto os primeiros raios de sol invadiam sua janela.

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12 de Abril de 2007

Isto não é uma história

Autor(a): CoN

Queridos leitores, interrompo, neste momento, a programação normal do blog pra comunicar que eu, nesse momento, sou o visitante 1001 do blog, ou seja, a pessoa antes de mim foi o visitante 1000.

Se essa pessoa (que, de acordo com a CIA e o FBI, chegou aqui através de algum link pra cá do meu outro blog usando windows XP e IE) teve a sagacidade de tirar uma screenshot desse fato, ou de alguma forma possa provar que foi o tal visitante 1000, favor entrar em contato comigo para ganhar um Perfex azul autografado com caneta nanquim pelos 3 (três) membros do blog.

Aproveito esse momento especial, ainda, para lembrar vocês, leitores, de que vocês são muito importantes para que continuemos motivados a escrever belas, emocionantes e inteligentes histórias e que é fundamental a participação de vocês criticando e interagindo conosco (a maneira de interagir conosco fica a seu critério ;-) ). Lembro ainda que nosso blog é aberto a participação de leitores que enviam suas histórias para serem publicadas.

Obrigado pela atenção, desculpem-me pelo incomodo (e pela viadagem terceiro parágrafo) e voltamos à programação normal.

4 de Abril de 2007

Afrotrip - parte III

Autor(a): Diego

- OK, então eu passo a filmadora no cartão do meu pai? - Perguntou Diego pouco antes de se sentar.

-É. E se você comprar o seu walkman (iPod…) você passa no meu - disse sua mãe.

- E que horas são? Quero pegar a fila faltando uma hora pro avião sair.

- São cinco e quinze- disse seu pai – daqui quinze minutos você vai…

Diego já não parecia mais ouvir. Estava mergulhado em pensamentos sobre seu iPod ou sua câmera, nem sequer se lembrando que estes eram os últimos quinze minutos que passaria ao lado de seus pais nos próximos dois meses. Bela câmera.

Passados os quinze minutos, Diego levantou-se e foi em direção à fila, onde haviam cerca de vinte pessoas.

- Dá pra esperar? – perguntou sua mãe – daqui a gente não pode passar.

Só então Diego notou. Estava adentrando um saguão por onde apenas podiam entrar aqueles que portavam sua passagem. Sem grandes cerimônias, despediu-se de seus pais e foi logo pegar a fila. “Será que eu pego o iPod preto ou o branco?” pensava ele.

Voltou a si cerca de dez minutos depois, percebendo que a fila não andava. Ao seu lado, um boliviano reclamava:

- Caramba, que se passa? Estoy temprano! (ou algo assim)

Diego não sabia se tinha entendido, mas o sentimento era compartilhado por todos. Ao vasculhar o saguão com cuidado, percebeu que no fim da fila haviam quatro orientais, trajando terno, discutindo acaloradamente com o gentil senhor que fazia a vistoria das passagens.

Pouco mais de dez minutos depois, a fila tornou a se mover, e logo chegou sua vez. Tratou de tirar logo todo material metálico que tinha em mãos. Ao passar pelo detector, o alarme soou. Seu coração disparou. “o que eu esqueci?”, pensava ele.

- Senhor, você está de cinto? - perguntou o segurança, de maneira surpreendentemente simpática.

- Porra, verdade! - exclamou sem querer.

Finalmente, agora era só achar sua câmera e seu iPod.

Entrou na lojinha, e foi logo para a sessão de eletrônicos. Quase que como mágica, um vendedor brotou do chão,

- Posso ajudar?

- Pode sim. Eu estou procurando uma filmadora digital.

- Nós temos apenas estes quatro modelos.

- Quero o mais barato.

- Pois não. Algo mais?

- Um iPod nano.

- Tamanho?

- Dois giga.

- Só tem preto.

- Tá, era isso mesmo que eu queria.

Pagou. Nunca em sua vida ele tinha se sentido tão roubado.

Foi então que ele caiu em si. “Tá, e agora eu vou pra onde?”

Olhou em volta. Achou o numero de sua plataforma. Seguiu as placas. Olhava o relógio toda hora. Apesar de ainda faltar meia hora para ele poder entrar no avião, sentia-se compelido a chegar logo à plataforma. Finalmente, depois do que pareceram duas horas (cerca de quatro minutos e vinte e sete segundos), ele chegou à área destinada aos passageiros da companhia South África Airlines. Ficou em pé perto da porta que levaria ao avião, para que pudesse se sentar logo. Então ouviu um barulho de celular tocando, procurando de onde vinha o som. Viu uma bela mulher, que trajava um vestido longo tirando o aparelho de sua bolsa.

- Alô?… Não, vou embarcar daqui a pouco… Ele tá com o Carlos… Uma glock nove milímetros na bolsa… Ele é o terceiro mais procurado pela Al Qaeda.

“Puta que pariu, só me falta agora cair o avião no meio do mar” pensou ele verdadeiramente assustado. Olhou para o banco, e todos subitamente ficaram muito parecidos com um homem procurado pela Al Qaeda sentado ao lado de Carlos.

- Atenção passageiros do vôo 637 com destino a Joanesburgo, o embarque está liberado.

“Bom, é isso ai” pensou ele enquanto entrava na aeronave. “Agora não tem mais volta. Porra, eu tenho que ir até o fundo do avião? Sacanagem hein…”

Pois é, a vida é assim.

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