20 de Dezembro de 2006

Reflexão Suspirosa (?)

Autor(a): Bam

Ele sentou na varanda e acendeu o cigarro. Aquele era o seu momento preferido do dia, quando podia conversar consigo mesmo, sem a interferência de comentários que só sabiam repetir as regras e as morais hipócritas da sociedade.

“A moral também é uma questão de tempo”, essa frase se repetia incessantemente na sua cabeça. Não sabia se concordava, afinal, tinham se passado apenas 22 anos após seu nascimento. Não sabia também se com seus 60 anos seria uma pessoa completamente amoral… ou se, com a desilusão pela vida, voltaria a possuir toda a moral perdida.

Entre uma tragada e outro refletia até sobre o próprio ato de fumar. Quando tinha começado? Não se lembrava. Quando iria parar? Não tinha essa intenção ainda. Fumar era um dos seus pequenos prazeres da vida, mesmo sabendo que destruía uma parte da sua caminhada. Mas podia acabar com sua existência da maneira que desejasse! Pagava seus impostos e ainda nem alimentava o narcotráfico! Ora, que alarde faziam para uma simples questão de escolha individual.

O cigarro acabou. Suspirou profundamente e levantou-se. Agora era tempo de retornar para o ninho humano, para as conversas tolas e para o convívio hipócrita.

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16 de Dezembro de 2006

Perigo Noturno

Autor(a): CoN

Eram duas da madrugada e Aderbal acordou assustado, com a impressão de que alguém havia o cutucado. Abriu os olhos, virou-se de lado e viu que sua irmãzinha estava em pé ao lado da cama, o cutucando.

Resmungou perguntando o que ela queria, mas sem deixar claro que era isso o que ele estava perguntando, o que fez a garota achar que ele estava apenas bocejando. Ela olhou pra ele assim mesmo, e disse algo. Aderbal já estava adormecido de novo.

Ela o cutucou novamente, e ele acordou da mesma forma patética novamente, e novamente grunhiu algo incompreensível. Antes que ele dormisse de novo, ela disse de novo o que ela havia dito anteriormente, e dessa vez ele a ouviu.

Levantou-se da cama, mas não sem antes amaldiçoar a terra, o céu, as irmãzinhas pequenas e as lâmpadas que teimam em queimar nos momentos em que elas não deveriam queimar.

No quarto de sua irmã, o abajur azul exibia no globo de vidro branco, de forma patética, o rosto de um palhacinho sorridente. Aquele palhacinho havia sido seu um dia e por mais que as pessoas grandes achassem que aquele era o tipo de abajur que deveria decorar o quarto de uma criança, ele nunca lidou bem com o fato de haver um palhaço assistindo-lhe dormir por toda a noite. É claro que, agora crescido, devidamente amadurecido, sendo um rapaz esclarecido, aquele abajur não significava mais nada para ele.

Contudo, o abajur estava apagado, já que uma daquelas lâmpadas teimosas que insistem em queimar em momentos inoportunos havia queimado naquele momento, que era bem inoportuno; esse havia sido, inclusive, o motivo pelo qual sua irmãzinha acordara no meio da noite e havia ido cutucá-lo as duas da manhã.

Pacientemente, Aderbal removeu o globo de vidro com a cara patética do palhacinho, removeu a lâmpada queimada, colocou a lâmpada nova que havia ido buscar na garagem (“Malditas escadas! Malditas garagens distantes dos quartos! Malditas lâmpadas que se alojam nas garagens!”), recolocou o globo em seu devido lugar e acendeu o abajur.

Lá estava novamente o palhacinho, pateticamente sorrindo para ele, aquele sorriso bobo e feliz. Chegou a achar graça de, um dia, ter tido medo daquele simples abajur e só não começou a rir porque estava com muito sono pra isso. Cobriu sua irmãzinha e foi se deitar.

Deitou-se novamente em sua cama, pronto pra recuperar o sonho que estava tendo antes de ser acordado na primeira vez por sua irmãzinha (sonho que envolvia uma praia, uma famosa apresentadora de canais jovens e ele próprio, no papel de namorado da famosa apresentadora). Contudo, uma cabeça redonda branca de palhaço insistia em tomar de assalto todas as suas tentativas de relembrar seu sonho, contar carneirinhos ou simplesmente não pensar em nada.

Virou-se na cama, de um lado pro outro, como se não conseguisse dormir de forma nenhuma, que era exatamente o que estava acontecendo. A cada cochilada, uma trupe de palhaços de circo, todos com as cabeças brancas, o atacavam com chinelos de praia e sua namorada fugia desesperada em busca de um lugar menos circense para ficar mais a vontade, e ele acordava novamente.

Sua irmãzinha acordou (de forma muito menos patética, o que não era difícil) com Aderbal cutucando-a.

- Vim dormir aqui com você, porque eu sei que você deve estar assustada com a lâmpada que queimou.

Ela não estava assustada.

- Mas eu não tô assustada!

- Tá sim, não precisa fingir… Posso dormir com você ou não?

- Pode ué – fez uma pausa curta, suficiente pra perceber que o quarto estava escuro – Ei! Por que tem uma toalha em cima do meu abajur?!

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11 de Dezembro de 2006

Infância

Autor(a): CoN

- Paiê, tá chegando?

- Ta Léo, falta só mais um pouquinho.

- Mas você já me falou isso várias vezes!

- Mas é que ta chegando mesmo, você que pergunta muitas vezes.

Léo se sentou de novo no fundo do banco. Seu leãozinho, Arnold, dormia em seu colo. Léo olhou pra ele, e cutucou seu nariz. O pequeno felino deu uma resmungada. Léo cutucou seu nariz de novo. O leãozinho espirrou e acordou. Olhou para seu dono, que ostentava aquela cara marota de “eu não fiz nada”, e voltou a dormir.

Léo viu que nem Arnold tava com vontade de brincar. Ele podia jogar gameboy agora, mas tinha esquecido as pilhas em cima da cama, antes de sair de casa. Já estava cheio de contar os carros que passavam na estrada, ou de fazer careta pros motoristas.

- Pai, a gente não vai chegar!?!

- Léo, eu já falei que estamos chegando! Olha bem ali, lá no fundo, ta vendo? Daqui eu to vendo a ponta do prédio da vovó, você não?! Acho que ela tá dando tchauzinho pra gente!

Léo olhou, apertando os olhos, mas não conseguiu ver o prédio. Aliás, nem cidade nenhuma ele via. No máximo, umas poucas casas espalhadas, avisando que o meio urbano se aproximava. Mas, se seu pai tava dizendo, então era verdade, estavam finalmente chegando.

O relógio do carro mostrava dois números, dois pontinhos e mais dois números. Os dois primeiros números, Léo conhecia, mas as aulas da escola tinham fugido de sua cabeça. O primeiro, um palitinho, era o primeiro da turma… Seu nome… Ah… Isso, era um! O segundo era apenas uma bola, chamava zero, mas Léo não entendia exatamente o que ele significava. Aliás, Léo também não entendia se o relógio marcava uma hora ou zero hora, já que os dois números estavam no mostrador! Ah, que cofusão!

- Pai, que horas são?

- São 10 e meia filho…

Ah! Então era isso! Dez e meia! Mas que diabos eram dez e meia?! Bom, isso já era muito complexo pra Léo, e resolveu parar de pensar nas horas.

- Ta chegando pai?

- Táá Léo… Escuta, pergunta pro Arnold se ele ta vendo a vovó lá longe! Acho que ela está esperando a gente com aquelas bolachinhas gostosas.

- Mas pai, o Arnold ta dormindo, e não quer acordar de jeito nenhum…

Léo não acordaria o Arnold pra perguntar qualquer coisa sobre a vovó. Sabia que o leãozinho não gostava da vovó, porque ela nunca lembrava o nome dele, e falava dele sempre como “o gatinho de pelúcia do Léozinho”. Léo já explicou pra sua vó muitas vezes que Arnold era um leão bravo e briguento, mas ela insistia em chamá-lo assim.

Léo olhou o relógio de novo. O último número do mostrador, que antes era um zero também, agora era aquele difícil de desenhar, com uma voltinha embaixo. Ah, o dois. Isso significava que passou dois… segundos ou minutos? Isso sempre confundia Léo, mas uma coisa era certa, não passou muito tempo. Que horas seriam agora? Dez e meia-dois?

- Pai, que horas são?

- Dez e meia filho!

- Mas era dez e meia na outra hora que você falou!

- Sim, agora são dez e trinta e dois, mas é que o papai arredondou.

Hum… É, o zero é mais redondo que o dois mesmo, mas o quê que isso tinha a ver?

Léo encostou a cabeça no banco, e começou a pensar nos números. Coisa de doido, não entendia porque ele tinha que aprender aquilo. Pior eram as letras, mas essas ele não sabia nem os nomes ainda… E aquela viagem então, tava dando um sono… As letras eram estranhas, algumas parecem números, que dançam… Não, as pessoas que dançam, e o carro balança… Aliás, é bom fechar o olho assim, com o balanço… Quantos números! Droga, as aulas acabaram e ele ficava pensando em números… Letras… Números… ZZzzzZzZzzz…

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9 de Dezembro de 2006

João, o Revoltado

Autor(a): CoN

João acordou com aquele espírito “animado e feliz” com que acordava todas as manhãs, distribuindo olhares carrancudos para todos que lhe desejavam um bom dia, e se dando ao trabalho de resmungar algo que, se analisado friamente por alguém com muito bom humor e disposição, seria decifrado como uma resposta ao bom-dia que lhe foi desejado. Lavou o rosto na água fria da torneira, deu duas ou três agitadas em seus cabelos rebeldes antes de xingá-los por não se assentarem e saiu para a rua.

Seu automóvel, estacionado em frente sua casa, estava coberto por uma fina camada de poeira, que se acumulara durante a noite, vinda do terreno vizinho através do vento forte que soprou a noite. João sentiu espasmos de raiva ao lembrar do vento da noite, que chacoalhou tanto sua janela quanto um guepardo raivoso faria com um pequeno coelho que ousasse mordiscar suas patas. Obviamente, ele não se importava com o fato da janela quase torcer ao meio, e sim com o barulho que essa torção provocava, não o deixando dormir depois de ficar até as 2h45 da manhã tentando consertar seu computador – sem obter sucesso.

Saiu dirigindo pela rua pacata em que seu carro estava, bravo pela poeira que recobria o pára-brisa do carro. Contudo, só se deu conta da meleca que faria tentando esguichar água para limpar o vidro quando de fato esguichou água tentando limpar o vidro, melecando-o completamente. Já é reduntante dizer que isso o deixou mais irritado.

João guiava pelas ruas da cidade distraído, pensando, ao mesmo tempo, em quantas peças ele precisaria comprar para o serviço que realizaria nos computadores da empresa de seu tio, em quanto ele gastaria para terminar de consertar seu próprio computador – ele já havia gasto um bocado, e estava no vermelho esse mês - e em quão bizarro era o movimento de cabeça que a pessoa do carro da frente fazia, obviamente, dançando ao som de alguma música que tocava em seu rádio. Em alguns momentos do trajeto, João também desejava que o mundo se tornasse uma enorme bola de sorvete de flocos. Não é que ele realmente gostasse de sorvete de flocos; mas a idéia do planeta inteiro ser branco, gelado, escorregadio e cheio de pequenas “impurezas” pretinhas era fascinante.

Quando João atravessava o cruzamento de duas avenidas movimentadas, atento ao tráfego de carros que vinham pela avenida, uma voz conhecida lhe chamou a atenção.

- João!!

Olhou em volta, momentaneamente distraído, procurando a fonte do chamado.

CATAPLOF!!!!!!

-Bom, senhor, mais uma vez eu peço desculpas. O senhor pode ficar com meu número de celular, e eu ligo pro senhor amanhã mesmo, pois meu seguro vai cobrir tudo, pode ter certeza

- É, é bom mesmo… E mais atenção no trânsito por aí hein garoto. Humpf.

João ouviu engoliu seco este último comentário, e virou-se, para falar com Luara, a amiga que havia lhe gritado, e que esperava pra falar com ele.

- Hei João, sempre distraído hein! – João teve ganas de voar em seu pescoço e lhe dizer que só havia batido o carro porque ela havia gritado e tirado sua atenção. Mas, era ela. Justo ela. Só respondeu:

- É… Pois é… – permaneceu em silêncio, e depois - Bom, tenho que ir, preciso avaliar quanto vai custar consertar isso. A gente se fala. Tchau.

Não deu muito tempo pra que ela respondesse, virou as costas e saiu pensando no dinheiro que teria que emprestar de seus amigos pra poder fechar o mês. Mais que nunca, desejava do fundo de sua alma que a Terra se tornasse uma enorme bola de sorvete de flocos.



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